Entrevistas
 
19:20 quarta, 9 de novembro de 2011
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Entrevista com Costinha

Em entrevista ao ‘NOTÍCIAS DO FUTEBOL', Costinha exibiu a cordialidade e frontalidade que se tornaram conhecidas nas suas aparições públicas, não se tendo furtado a comentar vários temas delicados como a sua passagem pela Administração do Sporting, manifestando a sua opinião quanto ao superior investimento financeiro que actualmente verifica no clube.

Embora tenha passado pelo clube num período mais conturbado, ainda assim esse facto não impediu Costinha de considerar válida a sua presença no clube, tendo expressado que “entrei quando tinha de entrar”, sem arrependimentos.



"OCEANO ERA O MEU MÉDIO DEFENSIVO DE REFERÊNCIA"

- O Costinha disse numa entrevista à Playboy Portugal em Janeiro de 2009 que Maradona continuava a ser intocável. Quase três anos depois, o Maradona continua a ser intocável ou o Messi já tem um estatuto semelhante ou superior?
- Para mim, o Maradona será o maior jogador do mundo de todos os tempos. Obviamente que o Messi é um grande jogador, um dos melhores jogadores do mundo, existe sempre aquela tentação de fazer a comparação entre o Cristiano Ronaldo e o Messi mas penso que são dois jogadores diferentes.

Penso que é injusto estar a comparar o Cristiano e o Messi, são jogadores diferentes mas ambos têm um peso semelhante nas suas equipas. Para mim o Maradona continua intocável e penso que é assim para a maior parte das pessoas.

- O Maradona foi muito importante para as pessoas da sua geração?
- Para a geração de 80, para quem gosta de futebol penso que ele foi muito importante, não só ele mas também havia outros jogadores que eu gostava de ver, mas ele sem dúvida que foi muito marcante.

- E entre o período de Maradona e Messi quem foram os jogadores que o cativaram? Falava-se muito que Roberto Baggio poderia ser o "herdeiro" de Maradona, falou-se de Zidane, de Ronaldinho... que jogadores o Costinha destacaria?
- Estamos a falar de grandíssimos jogadores e assim é sempre difícil catalogar quem era o melhor, ou quem era o "sucessor", até porque nas décadas de 80 e 90 havia muitos grandes jogadores. Penso que ao contrário do que se pensa, os jogadores dessas gerações eram mais talentosos que os actuais.

Agora aparecem jogadores a espaços, mas naquela altura... Maradona, Baggio, Gullit, van Basten, cada país tinha uma centena de jogadores de qualidade e dentro dessa centena havia 5 ou 6 que podiam ser catalogados como grandes jogadores.

- O Costinha foi médio defensivo, na sua infância quem era o "6" referência?
- Oceano! O Oceano, porque era um jogador que toda a gente chamava de "tosco", um jogador que toda a gente no inicio de época dizia que ia jogar pouco, mas o que é certo é que o Oceano jogou com todos os treinadores e foi internacional por Portugal.

Se calhar o Oceano não conquistou tantos títulos como gostaria de ter conquistado, mas a forma como suava a camisola e como sentia o seu clube, fosse ele o Sporting, Real Sociedad, Nacional da Madeira, Cova da Piedade, os clubes onde ele jogou, ele deu sempre tudo aquilo que tinha e o que não tinha em prol do colectivo.

- E no estrangeiro, um "6" que o cativava?
- Gostava muito do Bryan Robson. Eu lembro-me na escola quando não dizia que era o Maradona dizia antes que era o Bryan Robson. O Robson juntamente com o Paul Ince foram dois médios do Manchester United que eu sempre apreciei.

- Hoje em dia qual é o "6" referência?
- Penso que o Pedro Mendes é um excelente jogador, é um jogador inteligente, maduro e um grande profissional, mas tenho que tirar o chapéu a Jesualdo Ferreira porque fez do Fernando um "6" de grandíssima qualidade, e tiro também o chapéu ao Fernando porque foi inteligente ao aproveitar os conhecimentos que o Jesualdo Ferreira lhe transmitiu e conseguiu se consolidar num clube como é o Futebol Clube do Porto.

A nível internacional gosto muito de ver jogar o Sergio Busquets, acho que é um jogador muito inteligente, e gosto também do Xabi Alonso que apesar de não ser um "6" clássico porque é um jogador que gosta de pisar terrenos mais adiantados, mas é um jogador com uma qualidade técnica e visão de jogo bastante acima da média.

- O Costinha é um apreciador do campeonato Italiano, o que nos pode dizer sobre o Andrea Pirlo, acredita que ele redefiniu a função de um "6"?
- O Pirlo jogou naquela posição porque os médios defensivos do Milan eram o Ambrosini e o Gattuso, portanto dois jogadores que não têm a qualidade técnica que tem o Pirlo. Não podemos jogar só com médios defensivos, isso era o mesmo que no FC Porto em 2001 jogar só eu, o Carlos Paredes e o Quintana, ou eu, o Paredes e o Fredrik Söderström.

Seriam três jogadores defensivos e depois faltaria alguma criatividade do meio-campo para a frente. O jogo em Itália é muito táctico, é um campeonato muito difícil porque é muito físico, e jogam com as linhas muito juntas. O Pirlo foi o jogador que o Milan escolheu para dar equilibro ao seu meio-campo, tem qualidade técnica acima da média e pode jogar com o Gattuso e com o Ambrosini e até com o Clarence Seedorf, pois este último é um "10" mas é um "10" trabalhador. Tem de haver equilíbrio, porque a jogar só com três Pirlos a tentar recuperar bolas não chega.

- Atendendo a que tem essa paixão pelo futebol italiano, não resisto a fazer esta pergunta. Qual era o seu clube referência em Itália durante a sua infância?
- Nápoles!

- Uma equipa onde pontificavam Ferrara, Bagni, Fernando De Napoli, Careca, mas sobretudo... era por causa de Maradona?
- Sim, por causa do Maradona, por causa da paixão com que se vive o futebol na cidade, porque o norte e o sul são duas realidades diferentes em Itália. Apesar de ser um campeonato apaixonante, os do sul conseguem ser um pouco mais vibrantes do que os do norte.

- E o estilo de futebol também muda consoante a região? Dizem que o Milan privilegia mais o ataque, enquanto no sul o futebol é mais defensivo...
- Penso que depende muito dos treinadores, penso que várias equipas têm o mesmo sistema de jogo, o 4-4-2 clássico, e depois há treinadores que implementam uma vertente diferente, o Milan com o Arrigo Sacchi, com o Fabio Capello, com o Carlo Ancelotti implementou sempre um conceito de jogo muito importante, contaram sempre com grandes jogadores nas suas fileiras, mas também vi o Spalleti jogar um futebol muito aberto e divertido com a AS Roma.

A Lazio também joga de uma forma bastante atraente, a Udinese, a Fiorentina, mas não fogem muito das questões centrais que é o aspecto táctico. Depois quem faz a diferença são os jogadores com a sua qualidade e a sua criatividade.

- Como compara a Serie A de hoje em dia comparada com a Serie A da segunda metade dos anos 90 quando era o campeonato para quem todos os jogadores queriam ir?
- Era quando lá estavam os melhores.

- É justo dizer-se que houve dois momentos marcantes, que foi quando o Ronaldo sai do Barcelona para o Inter em 1997 o que identificou a Serie A como sendo financeiramente mais forte, e em 2001 e 2002 quando Zidane e Ronaldo se mudaram de Itália para o Real Madrid conferindo à liga espanhola o rótulo de campeonato com mais glamour.
- Sim. Todos aqueles casos que foram criados abalaram um pouco a reputação da liga italiana, o factor financeiro foi determinante. Há outros factores, antigamente viam-se três jogadores estrangeiros a jogar em Itália e não se via um Italiano a jogar fora de Itália, eles queriam era ficar em Itália porque já estavam no campeonato mais forte. Os melhores jogadores do mundo estavam em Itália, se formos a contar os melhores jogadores da década de 80 e 90 quase todos eles passaram por Itália. Para mim era um sonho muito antigo poder jogar na liga italiana.

- Hoje em dia os adeptos, especialmente os mais jovens falam muito do Barcelona de Guardiola, mas há 20 anos atrás houve uma equipa que era o AC Milan de Arrigo Sacchi. Acha que o Barça é a melhor equipa de sempre ou dos passados 25 anos, ou pensa que o Milan de Sacchi teria algo a dizer?
- Nunca se pode considerar uma equipa a melhor porque os anos são sempre diferentes, as equipas são diferentes, os estados de forma e as vivências dos próprios clubes são diferentes. Se calhar esta equipa do Barça se jogasse há dez anos atrás teria pela frente outro tipo de jogadores, equipas e tácticas.

Lembro-me que o Barcelona de Cruyff era uma equipa imbatível e que todos diziam que era a "super-equipa" mas na final da Champions levaram 4-0 de um Milan que todos já diziam que não tinha hipóteses.
(NDR: O Milan jogou a final sem poder contar com Van Basten, Franco Baresi, Alessandro Costacurta, Jean-Pierre Papin, Brian Laudrup e Gianluigi Lentini).

O Milan de Arrigo Sacchi realmente... eu penso que qualquer pessoa que goste de futebol conhece de trás para a frente todos os jogadores que jogavam nessa equipa. Era uma equipa muito forte, tinham em Sacchi um treinador que revolucionou um pouco o jogo em Itália e se calhar fez com que os seus adversários directos se começassem a reforçar de uma forma diferente e a ver o jogo de uma forma diferente.

- Mourinho foi buscar Nuri Sahin ao Dortmund. Atendendo ao facto que o miolo do Real não consegue competir com Xavi, Andres Iniesta e Sergio Busquets, a ideia de Mourinho será jogar com quatro médios nos confrontos contra o Barça?
- As pessoas olham para o Barcelona e pensam "o Barcelona tem qualidade, temos que jogar como o Barcelona" mas eu pergunto onde é que há outro Xavi, Iniesta e Busquets? Não basta querer jogar daquela forma, o Barcelona joga assim porque tem um sistema táctico bom e jogadores bons, e por muito que queiramos copiar aquela identidade a verdade é que esses três jogadores com essas características são únicos no mundo, senão todos jogavam como o Barcelona.

É um 4-3-3 em que os jogadores têm bastante mobilidade, com a excepção do Busquets eles trocam constantemente de posição porque são ordenados tacticamente, enchem o campo e depois têm um controle de bola acima da média. Não têm medo de jogar, não têm medo de ter a bola, estão em constante movimentação.

Jogam sem avançado, o Messi joga como avançado mas está a jogar mais recuado, o que permite um maior controlo de bola e isso enerva os adversários, e quando se enervam os adversários começam a abrir buracos na sua defesa e isso contra o Barcelona é fatal.

- Mas como se anulam esses três médios? Não havendo três médios de igual valor, a solução passa por jogar em losango e colocar quatro médios na zona intermédia contra os três do Barça?
-  Em penso que a solução é termos a nossa própria identidade, lembro-me que no Porto de José Mourinho batemo-nos de igual com toda a gente. No ano em que ganhámos a Champions só perdemos 3-1 em casa com o Real Madrid e estamos a falar do Real Madrid com Zidane, Figo, Raúl, Ronaldo, etc.

Eu penso que a identidade de uma equipa tem de estar sempre presente, e a vinda do Nuri Sahin do Dortmund, é um excelente jogador, acompanhei a campanha do Dortmund o ano passado porque de facto eles tinham um estilo de jogo atractivo e tinham excelentes jogadores, e Sahin enquadra-se no perfil de jogador do José Mourinho.

É um jogador trabalhador, é um jogador que tem criatividade, que sabe atacar e que sabe defender, e é um jogador que joga para a equipa, que é algo que o José Mourinho quer sempre. É preciso ter personalidade, mas acima de tudo é preciso trabalhar para a equipa.

- Que memórias guarda de Cristiano Doni?
- É um grande jogador, é um grande Atalantino, é alguém que quando eu cheguei a Bergamo ele ajudou bastante, é um profundo conhecedor do futebol. É um jogador que se calhar podia ter tido uma outra carreira se não fosse o amor dele pelo Atalanta. É um jogador que se identifica muito com a cidade e com o clube, mas se quando era mais jovem tivesse tido um pouco mais de ambição, ele tinha qualidades humanas e futebolísticas para jogar num clube de maior dimensão em Itália.

"TALVEZ A ÚNICA VEZ QUE ENTREI NO ESTÁDIO DA LUZ COMO ADEPTO FOI PARA VER A FINAL DE SUB-20 EM 1991"

- Quando ganhou a Champions pelo FC Porto que clubes italianos é que estavam interessados na sua contratação?
- Inter e Juventus.

- E tinha alguma preferência?
- São duas grandes equipas, eu digo essas duas porque foi aquilo que me foi relatado. Eu graças a deus tive uma excelente carreira, não sou pessoa para olhar para atrás e estar arrependido, mas posso me gabar de nos últimos anos no FC Porto ter tido as maiores equipas internacionais interessadas nos meus serviços.

O que aconteceu foi que eu tinha um contracto com o FC Porto e eu nunca pedi para sair, respeitei sempre o contracto que assinei, eu sabia do interesse de outras equipas. O Porto pediu determinados valores que pretendia por mim, os outros clubes não subiram a parada e eu não me queixei pois eu sabia que também estava num grande clube.

- Entre esses vários clubes internacionais o Real Madrid de José Antonio Camacho era um deles?
- Sim, o Real Madrid oferecia uma verba, o Porto queria outra, isso foi no ano em que o José Mourinho saiu para o Chelsea, que era o outro clube para onde eu podia ter ido mas não se concretizou pois as verbas pedidas eram bastantes.

Nessa altura o Camacho chegou ao Real Madrid e pediu dois jogadores que era eu e o Ricardo Carvalho. O Real fez uma oferta, o Porto queria mais, eu fiquei no Futebol Clube do Porto que repito, também é um grande clube.

Faltava-me um ano para terminar o contracto, fiquei satisfeito com o interesse de outras equipas, se calhar teria sido uma oportunidade boa para mim e um salto na minha carreira, mas o Porto tinha me dado uma Liga dos Campeões, uma Liga Europa, dois campeonatos, uma serie de Taças de Portugal e Super-Taças, devolveu-me à selecção nacional, e eu não sou uma pessoa ingrata, e quando faço um contracto é para o cumprir.

- Qual é a vitória mais satisfatória, a Taça UEFA em 2003 ou a Liga dos Campeões em 2004?
- São ambas. Talvez a primeira tenha sido vivida com uma intensidade maior por ter sido a primeira e também porque ao longo dessa época penso que fomos uma das melhores equipas da Europa a jogar futebol.

- Gostou mais do futebol jogado essa época em 4-3-3 do que o jogado em 4-4-2 losango na época seguinte?
- Sim, mas é preciso ter em conta que a qualidade das equipas que defrontámos na época seguinte eram equipas mais fortes e com mais qualidade. As outras equipas já jogavam contra nós com mais algum respeito, já tentavam defender melhor, foi mais complicado, o futebol se calhar não foi tão bonito mas foi mais eficiente.

- O golo que mais lhe ficou na memória foi aquele ao Manchester United em Old Trafford?
- Foi o golo mais marcante. Os golos satisfatórios são aqueles que ajudam a equipa a ganhar, seja contra o Manchester ou contra o Barreirense é igual. Esse golo contra o Manchester e o golo contra a Roménia no Euro 2000 foram ambos importantes pois ambos ajudaram as equipas a passar à fase seguinte.

- Todos estes anos depois é possível apontar qual foi o momento mais alto das selecções em que o Costinha esteve envolvido? Foi o Euro 2000?
- São três momentos:

É o Euro 2000, que é a minha chegada à selecção por parte do Mister Humberto Coelho que é um excelente treinador, um grupo de jogadores com os quais aprendi imenso, eram jogadores que eu só costumava ver na televisão. Fui ao Estádio da Luz ver esses jogadores vencerem o Mundial de Sub-20 em 1991. Foi das poucas vezes ou talvez a única vez em que entrei no Estádio da Luz como adepto, foi para ver Portugal jogar contra o Brasil (NDR: 30 de Junho de 1991). Eles eram grandes referências para mim e eu tive a sorte de ter esses jogadores como meus colegas no Euro 2000.

Em 2004 não conseguimos a vitória na final contra uma equipa (Grécia) que se calhar toda a gente subestimou, mas os nossos adversários mantiveram-se muitos coesos, muito unidos. Perdemos mas tínhamos um grupo fantástico, uma mescla de experiência e alguma juventude que trazia alguma irreverência e queria mostrar o seu valor.

Já sem o eterno Fernando Couto, o Rui Costa, o Rui Jorge o nosso grupo também conseguiu uma prestação muito boa no Mundial de 2006 apesar de não termos ganho nada.

- Durante o consulado de Scolari entre Fevereiro de 2003 e Junho de 2008 Portugal em quatro jogos nunca ganhou à Grécia uma única vez, empataram em Novembro de 2003, perderam no 1º e último jogo do Euro 2004, e voltaram a perder em Março de 2008.
- Da mesma forma que com a França não conseguimos ganhar, com a Itália não conseguimos ganhar. Da mesma forma que a Inglaterra contra nós não ganha um jogo desde 1986, e a Holanda também já não nos ganha há muito tempo. Há coisas inexplicáveis, a França também não ganha à Suíça há imenso tempo e a França foi campeã do Mundo e campeã da Europa. Nós somos uma equipa muito ofensiva, a Grécia é uma equipa muito defensiva mas que parte bem para o contra-ataque.

"O JOGADOR PORTUGUÊS É UM BOCADO VAIDOSO, QUER GANHAR AQUILO QUE AINDA NÃO MERECE"

- Disse numa entrevista que Portugal tinha deixado de ganhar títulos nas camadas jovens. Na sua opinião porque é que isso acontece?
- Neste momento a Suíça ganha bastantes títulos a nível de camadas jovens, enquanto Portugal antigamente ganhava em Sub-16, Sub-17, Sub-20, Sub-21, e hoje em dia não ganha porque se forem a ver os nossos quadros competitivos a nível de camadas jovens é pobre.

Se forem ver quantos estrangeiros jogam nas camadas jovens em Portugal são bastantes, portanto, se calhar precisamos de uma reformulação bastante grande. Precisamos de apostar como apostávamos no passado nos jogadores portugueses. Isto não quer dizer que o jogador estrangeiro não é bem-vindo, quer dizer é que numa situação igual se deve privilegiar o jogador Português.

Se estamos a ir buscar lá fora um jogador com a mesma qualidade ou perfil que o jogador português então estamos a retirar a este último algum espaço de manobra. Por outro lado, o jogador Português e o jogador em geral é um bocado vaidoso, muitas vezes quer ganhar aquilo que ainda não merece porque ainda não trabalhou o suficiente. Por vezes fazem exigências às quais os clubes não conseguem corresponder e por causa disso os clubes são forçados a apostar em jogadores estrangeiros que são muito mais baratos.

Portugal não tem laterais esquerdos, então temos tantos clubes a trabalhar na formação em Portugal e ninguém forma laterais esquerdos?

- O Rui Jorge diz que quando aparecem bons laterais esquerdos a tendência é meterem esses jogadores a jogarem como extremo esquerdo.
- E porque não se trabalha esse lateral esquerdo? Já que dizem que somos tão bons na formação? Não temos laterais esquerdos...
- Nem pontas-de-lança.
- Porquê!? Andamos a bradar aos céus que na formação somos óptimos.
- O Sporting forma muitos extremos e médios-centro...
- Formar para mim não é só formar extremos, a formação é para conseguir dar ao plantel principal soluções para as carências que possam existir. O Sporting faz muitos extremos, o FC Porto faz muitos centrais, mas isso só não chega.

- É por causa dos jogadores Portugueses serem mais caros que o Sporting nos passados cinco anos foi buscar jogadores à Sérvia e a outros mercados de Leste?
- Felizmente o Sporting a nível da formação é dos clubes que mais portugueses tem. Se forem a ver o Inter ganhou a Liga dos Campeões só com um Italiano (NDR: Marco Materazzi que entrou aos 90 mts).

- Concordava com a regra que havia há quatro anos atrás na formação e que só permitia jogar com dois jogadores estrangeiros por equipa?
- Eu sou apologista de que quanto mais jogadores portugueses se formar melhor será para o futebol português. Isto é tudo muito bonito, mas daqui por uns anos vamos precisar desses jogadores na selecção Sub-21 e na selecção principal, e depois onde é que temos esses jogadores? Vamos ter que nacionalizar mais jogadores?

Nós habituámos o povo português a andar lá em cima porque nos últimos doze anos nós sem termos os recursos do Brasil, Argentina, Espanha e França a verdade é que temos feito boas campanhas. As expectativas estão altas, mas não podemos exigir milagres aos futuros seleccionadores se não lhes derem a matéria-prima.

- Quando esteve no Sporting tentou mudar algumas dessas coisas com que discorda na formação?
- Não, cada qual tinha a sua função, a formação tinha um director, a minha responsabilidade era o futebol sénior e foi nisso que me tentei concentrar. Fui sempre deitando um olho na formação, até porque acredito muito no modelo holandês, o Sporting nos passados dez anos foi a melhor formação nacional, mas eu lembro-me do Ajax de 1992 e 1993 com jogadores de 17 anos a ganhar títulos europeus...

- Ganharam a Champions em 1995, com van der Sar, Winston Bogarde...
- Reiziger, o Kluivert, um Seedorf muito jovem, o Edgar Davids, jogadores que com aquela idade já apresentam uma maturidade muito grande. Isso era um desafio que eu gostava de ter implementado no Sporting. Porque é que na Holanda um jogador de 17 anos vem para a primeira equipa e tem uma maturidade tão acentuada, e nós cá em Portugal não conseguimos fazer isso com os nossos atletas?

- Concorda com Paulo Bento quando ele disse que iria continuar a chamar os Pepes, Decos e Liedsons mas que no consulado dele não iria nacionalizar novos jogadores?
- Concordo.

- É difícil contratar Portugueses?
- O jogador português por vezes quer logo mais do que aquilo que merece. Nós somos invejosos por natureza, estamos sempre a olhar para quanto ganha a pessoa do lado. Eu quando cheguei ao Mónaco eu vinha da 2ª Divisão B e já ganhava mais que o Thierry Henry e que o David Trezeguet mas depois eles foram campeões pela França, começaram a ganhar dez vezes mais do que aquilo que ganhavam, começaram a ganhar mais do que eu ganhava e isso aconteceu-lhes porque eles trabalharam muito para isso.

Quando eu estava a terminar o meu contrato o Mónaco quis renovar por seis anos, eu já (NDR: Tinha 26 anos de idade) tinha noção do meu valor, pedi outros valores, eles não aceitaram, eu já sabia que tinha o Futebol Clube do Porto interessado em mim e também o Benfica e tomei a decisão de ir para o Porto. Posso revelar que a proposta do Mónaco em 2001 era financeiramente mais vantajosa que a do FC Porto, mas desportivamente ir para o FC Porto foi uma aposta acertada.

- Curiosamente depois cruzaram-se na final da Champions em 2004...
- Com muita mágoa minha eu hoje em dia vejo o Mónaco na 2ª Divisão Francesa (NDR: presentemente no último lugar dessa competição) com um orçamento de 57 milhões de euros. Temos que começar a olhar para este tipo de fenómenos com outra atenção.

- Que memórias tem de Reinaldo Telles?  Pergunto isto porque geralmente Octávio Machado é mais cáustico a falar de certas pessoas, mas ele diz que Reinaldo Teles é uma pessoa especial.
- O Mister Octávio é uma excelente pessoa, ele não é pessoa de criticar, ele vem de um tipo de futebol em que os princípios eram algo importante, e o amor pelo clube e o amor pela camisola, e o amor ao jogo, mas hoje em dia os tempos vão passando e as coisas vão tornando-se diferentes.

O Sr. Reinaldo Teles é uma referência do Futebol Clube do Porto, já é assim há muitos anos, e sempre foi uma pessoa que se deu muito bem com os atletas, portanto é normal que os jogadores e outras pessoas tenham um carinho especial quando falam dele.

- Qual a razão para o "Fabuloso" Luís Fabiano ter sido um sucesso no São Paulo e no Sevilla mas no Porto não ter conseguido afirmar-se? Falava-se muito da pressão das claques e que o atleta psicologicamente não estava bem...
- Pelas claques não seria, se as claques pressionam em Portugal então no Brasil vejo coisas que são de bradar aos céus, portanto, não vamos por aí. O Luís teve um problema porque a sua mãe tinha sido raptada e isso afectou a sua forma. Pelo que vi do Luís mostrar nos treinos e nos jogos, ele tinha pormenores que eu vi em poucos pontas-de-lança na minha carreira. Era um jogador que me encantava....

- Diziam que ele era o "Vice-Ronaldo" na selecção...
- Saiu do FC Porto e foi para o Sevilla e encaixou, por vezes é inexplicável, há jogadores que rendem num sítio e não rendem noutros. Pode ser por inadaptação, pelo estilo de jogo da equipa, por causa de um momento de má forma, mas não teve nada a ver com claques, porque eu estive lá e sei muito bem que não se passou nada de anormal. Ele até começou a época bem, estava a jogar bem apesar de não fazer muitos golos, mas depois raptaram-lhe a mãe e isso afectaria qualquer pessoa.

"EU QUANDO ERA JOGADOR SABIA QUE HAVIA JORNALISTAS QUE ERAM PAGOS PARA ESCREVER MAL DOS JOGADORES"

- Como é que tem sido a sua relação com a Comunicação Social desportiva ao longo dos anos? Pergunto isto porque agora falávamos do Luís Fabiano e eu recordo-me que Miguel Sousa Tavares creio que uma vez lhe chamou Luís "Fabuloso Fora-de-Jogo" Fabiano ou algo do género numa crónica no jornal A BOLA. Lá fora a imprensa desportiva é diferente da Portuguesa?
- Conheço alguns países, mas nós somos um país latino, aqui é giro, é engraçado, porque em Portugal toda a gente fala. Médicos falam de futebol, cineastas falam de futebol, pilotos falam de futebol, directores de bancos falam de futebol, mas eu não vejo nenhum futebolista ir para a televisão comentar medicina, economia nem cinema.

Eu percebo que toda a gente gosta de dar a sua opinião e de aparecer na televisão, e de ter uma frase importante, se calhar para ganharem notoriedade. Em Portugal como há três jornais desportivos diários, por vezes há coisas que se fazem só para fazer, porque é preciso alimentar, é preciso vender, é preciso criar alguma tensão.

Toda a gente pensa que eu tenho uma relação muito má com a comunicação social mas isso não é verdade. Mas eu quando era jogador sabia que havia jornalistas que eram pagos para escrever mal dos jogadores porque alguns presidentes queriam que se falasse mal, havia jornalistas que falavam bem de um jogador porque o empresário o queria vender, e isso para mim não é jornalismo, jornalismo é informar.

- Em Portugal há muito daquilo a que José Mourinho apelidou de "Prostituição Intelectual"?
- Muitíssima!

- O Costinha na edição de 28 de Setembro de 2010 do Jornal Sporting deu uma entrevista na qual disse que tinha aconselhado os jogadores sobre como deviam falar com os media.
- Dei conselhos, por exemplo, eu dou uma entrevista e um jornal transcreve de uma maneira e a rádio relata de outra. O jornal tira as frases que quer, porque uma frase retirada de um contexto chama a atenção e faz as pessoas irem procurar. Essas declarações depois fazem com que os media tenham que procurar uma declaração de outra entidade e o jornal vai sempre publicando.

Estávamos (Costinha e os jogadores) a falar sobre os possíveis eleitos para África do Sul (Mundial de 2010) e eu disse aos jogadores para terem cuidado com o que dizem porque depois as frases podem ser publicadas fora de contexto. Eu prefiro ver os jogadores falarem na televisão, porque na televisão a gente ouve o que ele diz, nos jornais nunca sabemos se ele disse ou não aquilo e assim ficamos à mercê do jornalista.

Eu até acredito que os jornalistas vão lá de boa fé, mas depois o redactor-chefe é que pode dizer antes "mete assim ou assado ou cozido". Eu dei conselhos práticos para não haver muita polémica em torno das declarações que se faz.

- Quando o Paulo Sérgio chegou ao Sporting algumas pessoas diziam que vocês eram amigos há muitos anos...
- Eu nunca conheci o Paulo Sérgio. Sei que andou na mesma escola que eu em Chelas. Eu conheci-o como jogador. Quando se começou a falar no Paulo Sérgio para vir treinar o Sporting eu comecei a ver alguns dos trabalhos que o Paulo Sérgio fez pelos clubes por onde passou. Falei também com algumas pessoas que o conheciam para poder saber mais sobre a sua forma de trabalhar antes de avançar para a sua contratação.

Ele é meu amigo neste momento mas eu não conhecia o Paulo Sérgio antes de ele vir para o Sporting. Isto é um bocado os media com ... "o Costinha é amigo do Paulo Sérgio, o Costinha é amigo do Maniche, o Costinha é amigo do Jorge Mendes", eu sou amigo de toda a gente...

Estou proibido de ter amigos. Venho para o Sporting mas não posso ter amigos meus na área do futebol, mas nos outros clubes os outros podem ter amigos, mas isto já é próprio do sistema que funciona em Portugal.

- O Carlos Alberto chegou ao Porto em Dezembro de 2003 e com 18 anos tinha talento que indicava que iria ser um jogador fora-de-série. Marcou na final da Champions em 2004, mas sete anos depois a evolução foi o que foi, ele tem tido problemas de indisciplina, mudou várias vezes de clube. Que recordações tem dele?
- O Carlos podia ter sido..... o Carlos foi durante um período um grande jogador, mas a margem de progressão que ele tinha.... o Carlos podia ainda hoje ser um dos melhores jogadores do mundo. O Carlos tinha força, tinha velocidade, tinha talento, marcava golos, foi um jogador que se calhar não soube lidar com a pressão na altura, a nível de exposição e de exigência e que é necessária numa equipa de topo.

Tenho pena porque o Deco saiu do Futebol Clube do Porto e o Carlos tinha condições para ser o "10" do Porto durante os anos que o clube achasse conveniente e depois podiam ter vendido o Carlos por imenso dinheiro. Digo com toda a convicção que o Carlos podia.... o Diego (Ribas da Cunha) é um grande jogador, mas o Carlos Alberto para mim era muito melhor que o Diego, muito melhor!

- Porque é que o Diego Ribas da Cunha não conseguiu impor-se no FC Porto? No Santos era "melhor" que o Robinho, no Werder Bremmen foi eleito o melhor jogador da Bundesliga. Ele era demasiado lento na transição defesa-ataque do FC Porto?
- Era um grande jogador, mas o Diego veio para substituir o Deco, não é? O Porto tinha sido campeão europeu, tínhamos uma qualidade de jogo muito alta, mas o que é certo é que o Futebol Clube do Porto daquele ano mudou bastante, venderam muitos jogadores, entraram vários, tivemos três treinadores, um tem um conceito, outro treinador tem outro, e assim é complicado estarmos ao nosso melhor nível.

O Porto é uma cidade fantástica para se viver mas tem uma massa associativa que é bastante exigente. Eu quando lá cheguei senti a pressão do FC Porto. Se eu que era experiente e jogador de selecção sentia a pressão então imaginem um jogador de 19 anos que vem de outro país.

No Santos ele era muito acarinhado mas no Futebol Clube do Porto quem é acarinhado é a equipa. O que interessa é a equipa e não o jogador, o jogador é apreciado por aquilo que pode dar ao clube. O que importa é o emblema e a camisola, e isso está acima de tudo.

- Como se recorda daquele episódio com "Gigi" Del Neri durante o qual se introduziu uma nova expressão no Futebolês, "Período Experimental"?
- Era um excelente treinador, tinha sido a sensação do campeonato Italiano com o Chievo que quase venceu a liga esse ano. Saiu José Mourinho, o Porto queria fechar um ciclo e abrir um ciclo novo e para isso decidiram apostar num treinador emergente, diferente, mas que não teve sorte.

O Porto tomou a decisão de trocar de treinador e mandar embora Del Neri, e quem sou eu para discutir essa opção, eu era pago para jogar e não para opinar nem questionar as opções de Jorge Nuno Pinto da Costa.

"COM QUEIROZ A SELECÇÃO NÃO ERA FELIZ E JOGAVA À DEFESA CONTRA TODAS AS SELECÇÕES"

- O que achou do trabalho de Carlos Queiroz na Selecção entre Julho de 2008 e Setembro de 2010?
- Achei que não fez um grande trabalho. Foi um treinador importante para o futebol português porque fez bastante pelo futebol jovem e foi marcante, mas a constatação que faço foi de que enquanto esteve à frente da Selecção principal, a equipa não era feliz, a equipa jogava à defesa contra todas as selecções.

Ele antigamente incutia essa mentalidade ofensiva, jogando com três avançados e dois médios centro (4-3-3) mas quando vamos a ver o Mundial de 2010 a nossa identidade (ofensiva) não estava lá. Falando com alguns desses jogadores... "é impossível, é impossível, jogávamos sempre à defesa". Mas não deixa de ser uma figura marcante, não deixa de ser uma excelente pessoa, e foi uma das pessoas importantes no futebol jovem em Portugal.

- Qual é o seu número de sócio no Sporting?
- Não sei de cor, tenho na carteira mas é o 30 e qualquer coisa.

- É sócio do FC Porto?
- Tornei-me sócio quando lá cheguei (2001) porque é prática da casa, mas sou sócio do Sporting desde 1998 e só não sou há mais tempo porque eu venho de uma família muito humilde e o meu pai não podia estar a pôr comida na mesa para três filhos e ao mesmo tempo a pagar-me as quotas do Sporting. Eu ia ver jogos, e assim que me foi possível tornei-me sócio do Sporting porque já podia cumprir com essas obrigações.

"EU VI O TRATAMENTO QUE TIVE DOS JORNALISTAS, QUANDO SAÍ SÓ FALTAVA VIREM TOMAR CAFÉ COMIGO"

- Quando o Paulo Bento saiu do Sporting em Novembro de 2009 ele dizia que não tinha dinheiro para ir buscar jogadores como o Oscar Cardozo, mas em Dezembro desse ano chega o João Pereira e o Pongolle. Neste último ano há uma sensação de "Déjà-vu" porque o Costinha também não tinha dinheiro em 10/11, mas com esta nova administração em 11/12 surgem milhões de euros para ir buscar muitos jogadores.
Espero estar a citar correctamente, o Costinha disse "Esta administração está a fazer um trabalho diferente com outras condições, hoje em dia já há dinheiro para tudo isto e isso não é uma critica mas sim a constatação de um facto, já se compram jogadores de 5 e 6 milhões de euros e ainda bem". Sente que entrou no Sporting no ciclo financeiro errado?

- Entrei quando tinha que entrar. Fizeram-me uma proposta e eu tinha que decidir se queria continuar a jogar ou se queria abraçar essa nova carreira como dirigente. E era o Sporting, o Sporting sempre foi o clube que eu quis representar, não consegui como jogador mas consegui como dirigente.

Não vou falar de contratações anteriores senão isso dava "pano para mangas", muitas vezes é esse tipo de discurso que procuram e depois amanhã vem a pessoa que contratou dar a opinião dela e isto vai sempre alimentando (a imprensa) e o prejudicado é sempre o Sporting.

Isto é como... vai-se a algum lado e dizem que "os jogadores do Sporting partem o hotel", não dizem que o João ou o Zé partiram o hotel, têm que dizer que foram os jogadores do Sporting. Quem tem que ser visado são as pessoas e não a entidade que lhes paga.

Em vez de estar à procura de desculpas tentei fazer o meu trabalho com os meios que tinha, e quando eu digo que hoje em dia há muito mais dinheiro isso não é uma critica, é uma constatação de um facto. O que eu queria dizer é que o Sporting está melhor, tem poder financeiro para ir buscar jogadores, coisa que não aconteceu no ano em que eu lá estive.

Tudo (jogadores) o que veio... não é bem como as pessoas escrevem, porque as pessoas escrevem tanta mentira, e por vezes os adeptos já nem sabem o que é verdade e o que é mentira. As notícias ali servem um fim.

Eu vi o tratamento que tive por parte dos jornalistas quando eu estava no Sporting e quando eu saí só faltava virem tomar café comigo. Esqueceram-se do que me fizeram nos meses anteriores, era uma mentira atrás da outra. Por aí se pode ver o tipo de jornalismo que nós temos. "Ah, agora deixa lá porque agora já saíste do Sporting já podemos voltar a ser amigos, já podemos falar outra vez" mas essas coisas comigo não funcionam dessa maneira.

A minha relação com eles não é boa nem é má, eu tenho amigos jornalistas e nunca me servi deles para nada, nem para pôr noticias, nem nada, zero! Se calhar foi um erro, se calhar devia ter feito a mesma coisa que fazem outras pessoas, mas eu tenho os meus princípios e não abdico deles.

- Falava-se de muita coisa, falavam que o Costinha proibia isto, proibia aquilo...
- Claro.
 
- Sentiu-se atacado por algum jornal em particular, sentiu-se visado por alguém em particular?
- Houve jornais que diariamente ou uma vez por semana metiam uma mentira sobre mim, que eu inventei regras, que os jogadores não podiam usar brincos, que não podiam usar calças de ganga, diziam que eu fiz um documento, um código de...

- Um Código de Ética e Conduta?
- Não, um código de vestuário. Tudo era motivo, as pessoas estavam mais interessadas em saber qual era a cor do meu fato ou a marca do meu fato do que no trabalho que eu estava a desenvolver. Eu soube por exemplo que havia um jornal que iria todos os dias tirar uma fotografia do fato que eu tinha para apresentar uma peça sobre isso, portanto veja bem o tipo de jornalismo que nós temos.

Estarem sempre a publicar notícias que são falsas isso acaba por desgastar, às duas por três eu assim não podia fazer mais nada do que fazer comunicados a desmentir as mentiras. Começa a massacrar porque depois os sócios já não sabem se é verdade, se é mentira, e isto complica o nosso trabalho.

- Relativamente à memorável entrevista na Sportv no dia 7 de Fevereiro, como é que ela surgiu, a Sportv convidou ou foi o Costinha que queria falar para esclarecer certas coisas?
- Eles convidaram-me, eu aceitei e fui lá falar.

- Mas eles não estavam à espera daquilo...
- Há coisas que acontecem quando têm que acontecer. Falei o que tinha a falar, penso que até fui "soft", porque podia ter falado mais, mas foi um grito de alerta e quem sabe esse grito de alerta vai fazer bem ao Sporting este ano e isso é o mais importante.

- Quanto tempo antes da entrevista é que o convite foi feito?
- Enquanto lá estive sempre tive convites, Sportv, TVI, SIC, sempre, todos interessados. Aquela pareceu-me ser a melhor altura porque estávamos num período conturbado e era preciso retirar a pressão da equipa e manter essa pressão só na minha pessoa. As coisas desportivamente não correram como estavam previstas, mas isso são coisas que agora devem ficar dentro do foro do Sporting.

- Quanto tempo antes da entrevista é que decidiu que iria ter aquele discurso?
- Não fui para lá com as coisas planeadas.

- Mas aquilo surpreendeu muita gente dentro do próprio Sporting.
- É normal, as pessoas conhecem a minha personalidade, a forma como eu actuo, devem estar à espera deste tipo de situações. Uma coisa que eu não ouvi ninguém dizer até hoje é que aquilo que eu disse era mentira. Não houve uma pessoa que tenha dito que eu estava a mentir e isso é algo que me preocupa, é sinal que as pessoas sabiam do que se estava a passar mas "pronto, deixa andar".

- Mas o Costinha quando foi dar essa entrevista seguramente não foi sozinho, alguém do Departamento de Comunicação deve ter ido consigo?
- Alguém do Sporting que vá a algum lado falar, leva sempre com ele alguém da comunicação, sempre, seja jogador ou director, há sempre alguém da comunicação por perto.
(NDR: A assessora de imprensa do futebol profissional esteve presente durante a entrevista).

- Essas pessoas têm a responsabilidade de se certificar que o Costinha não diz nenhum disparate...
- Sim, mas se eles estivessem aqui e eu quiser dizer qualquer coisa, eles não me dizem o que dizer nem controlam o meu raciocínio.

- Mas a comunicação do clube sabia que você ia à entrevista dizer o que disse?
- Não.

- E qual foi a reacção deles após a entrevista?
- Ficaram estupefactos. Não sei qual é a reacção deles porque depois também não perguntei.

- Mas não lhe fizeram nenhum reparo em termos de estratégia comunicacional?
- Fizeram, disseram que eu tinha sido muito agressivo e perguntaram se eu tinha pensado naquilo que tinha dito. Eu disse que sim, que senão não ia lá, não sou uma pessoa de fazer as coisas ao acaso. Disse o que disse de consciência tranquila e tinha consciência das consequências, não foi a medo, porque com medo não se vai a lado nenhum.

"NO SPORTING TODA A GENTE FALA COM OS JORNALISTAS"

- Há bocado disse que por vezes a relação é má com os jornalistas mas que depois já está tudo bem...

- Olhe, quem me disse isso foi uma jornalista. Ela disse que "às vezes no Sporting a gente trata-vos mal mas passados dois dias vocês já nos convidam para tomar café". Se os jornalistas fazem isso e vão às Antas ou ao Benfica são logo corridos à pedrada. Mas no Sporting não, até porque toda a gente fala no Sporting. Os jornalistas gostam de meter o microfone à frente das pessoas porque no Sporting toda a gente fala.

Isto foi-me dito por jornalistas, e isto dói porque eu sou Sportinguista. Ouvir este tipo de comentários magoa-me, mas é o clube que temos, é o país que temos e é a classe de jornalismo que nós temos. As coisas que os jornalistas fazem ao Sporting não fazem nos outros clubes e ninguém me sabe explicar porquê...

- Porque vocês são mais permissivos.
- Nós quem?
- Vocês no Sporting.
- E porque é que somos mais permissivos?
- Porque faz parte da cultura do clube.
- E porque é que não se quer mudar isso?
- ....

Se isso mudar muita gente deixa de falar. Elas deixam de aparecer e ninguém sabe quem elas são.

- Como assim?
- Você conhece o Presidente da Assembleia Geral do Futebol Clube do Porto?
- Não faço ideia quem seja.
- Pois, e você sabe quem o Presidente da Assembleia Geral do Sporting?
- O actual?
- E o antigo sabe?
- Rogério Alves ou Dias Ferreira.

- O Dias Ferreira, e isto até nem é nenhuma critica, eu tenho uma muito boa relação com o Dias Ferreira e gosto muito dele, mas isto é para você ver como ninguém conhece o Presidente da Assembleia Geral do Futebol Clube do Porto mas no Sporting todos conhecem.
- Há muita gente a falar, é esse o problema?
- Você não vê!?

- Ainda agora disse que uma jornalista lhe disse que se davam mal mas depois já eram amigos...
- Isso são coisas que eu guardo para mim.

- Ia apenas perguntar se era uma loira ou talvez uma de cabelo encaracolado.
- Não, não, quer dizer, até pode ser loira, elas se quiserem ser loiras conseguem ser, não é? Elas estão sempre a pintar o cabelo, portanto não sei.

- Em relação a darem-se mal e depois darem-se bem já houve um episódio marcante, com a Irene Palma, em Março de 2010.
- Sim.

- Era o caso Izmailov, ela pediu um comentário seu e até foi contactada pela assessora de imprensa e posteriormente também pelo Costinha, e depois avançaram com a notícia o que gerou um "bate boca" entre as duas partes com uma intervenção sua e um comunicado da TVI.
Sim.

- Depois desse episódio ficou a ideia de que haveria alguma tensão entre o Costinha e a Irene Palma.
- Nenhuma!

- Mas naquela sua conferência de imprensa a 21 de Março de 2010 o Costinha falou na Irene várias vezes?
- Não, eu falei foi em "Irenes". Eu disse que a Irene Palma falou comigo. Toda a gente diz que tem fontes, eu digo que revelem as fontes.

- Só o tribunal nos pode obrigar a isso.
- Obviamente, mas se a fonte disser mentiras e vocês publicarem mentiras... Eu quando falei em "Irenes" não estava a falar da Irene Palma que até é uma excelente profissional. O tipo de jornalismo que se faz é que eu não estou de acordo.

A Irene fez aquilo, mas quem foi a fonte dela, foi a Irene Palma? Disse as "Irenes" como podia ter dito as "Paulas" ou as "Joanas" ou os "Pedros" ou os "Franciscos", apenas falei em Irene porque naquela altura era desse caso que estava a ser falado.

- Curiosamente quando uma descrição dessa conferência de imprensa foi publicada (entretanto removida) no site do Sporting vinha lá o nome dela, mas quando a noticia foi relatada nos outros O.C.S. o nome dela foi omitido por uma questão de solidariedade entre os jornalistas. Os adeptos ficaram com a ideia que a Irene seria "persona non grata" no clube, mas na manhã do dia da primeira jornada 2010/2011 o Costinha deu à TVI uma entrevista exclusiva conduzida pela Irene Palma.
- Logo aí se pode ver que não havia problema nenhum. Ela fez o trabalho dela (em Março) e eu fiz o meu comentário, eu apenas disse que não gosto que me venham dizer que têm uma fonte que lhes disse isto e aquilo. Se não revelam quem foi, então qualquer pessoa pode alegar seja o que for e dizer que tem uma fonte e isso para mim não é correcto.

Compreendo que os jornalistas tenham as suas fontes, mas não podem publicar sem mais nem menos, sem confirmação, apenas pensando "Bom, isto amanhã faz ruído, o jornal vende bem e acabou-se". Assim as coisas nunca vão mudar, os jornalistas terão pouca credibilidade, os jogadores não vão querer falar, e isso é mau, pois é importante que os clubes e os media trabalhem em conjunto para podermos promover este produto que é o futebol. Agora se começam com mentiras as pessoas ficam desconfiadas, excepto aqueles que gostam de estar sempre a aparecer, mas isso são outros quinhentos.

- No jornalismo tem alguns jornalistas que aprecie, e que na sua óptica tenham mais credibilidade, mais ética?
- Tenho alguns amigos jornalistas, eu estive no Sporting, eles ligavam-me, nós falávamos mas nunca sobre o clube. Dou-me muito bem com o Noé Monteiro da RTP, dou-me muito bem com o Manuel Casaca do JOGO, o Nuno Farinha que é Director do RECORD, eu joguei com o irmão dele na 2ª Divisão B, não tenho uma relação grande, mas tenho uma relação de respeito com ele.

O Hélder Conduto da RTP, o Carlos Daniel. Há alguns com os quais tenho uma relação de respeito. Talvez esteja a mencionar mais jornalistas de televisão do que da imprensa escrita, mas são jornalistas com os quais tenho confiança e são pessoas que quando me criticaram não escreveram só por escrever.

Eu vou contar-lhe uma história. Para você ver como as coisas são feitas, houve um jornal cá em Portugal que escreveu que eu tinha estacionado o meu carro num lugar reservado para deficientes mentais, depois tiveram que retirar porque eu pedi o direito de resposta.

- Foi no Correio da Manhã?
- Sim, Correio da Manhã. Dizem que eu estacionei lá o meu Porsche Panamera, mas eu nunca tive um Porsche Panamera. Você veja bem ao ponto a que aquilo chegou, aquilo já era só escrever por escrever. Os adeptos lêem aquilo e a dada altura já não sabem se é verdade ou se é mentira, e os jornalistas continuam a escrever como se nada fosse, para eles é perfeitamente normal.

- Porque não accionou judicialmente o jornal?
- Sim, o Sporting fez isso.

- Que acha da escolha de Irene Palma como Directora de Comunicação do Sporting?
- Não acho bem nem acho mal, não sei quais foram os critérios que levaram a escolher. Se a escolheram é porque tem qualidades. Essa pergunta tem que fazer a quem a escolheu. Ela já vem com experiência na comunicação na área do futebol, mas o porquê da escolha não sou eu que tenho que opinar.

- Fica feliz por ela?
- Eu!? Eu fico feliz se ela fizer um bom trabalho pelo meu clube. Ela é que tem que estar feliz porque está a representar um grande clube.

- No dia 20 de Junho de 2010 houve uma reunião em Alvalade onde esteve o Costinha, o Director de Comunicação, a Assessora de Imprensa da SAD, o Director-adjunto do Jornal Sporting e vários jornalistas, e nessa reunião eram suposto estabelecer regras entre os media e o clube.
- Por exemplo, disse aos jornalistas que eu não ia atender o telefone a ninguém. Nós tínhamos um Departamento de Comunicação, se queriam falar com alguém que falassem com o Director de Comunicação, senão ele não estava lá a fazer nada.

Cada vez que um jogador chegava, começavam logo a ligar para mim apesar daquilo que eu tinha dito nessa reunião. Eu disse que queria uma relação saudável com a imprensa, andar lado a lado com a imprensa. Eu posso estabelecer regras e formas de trabalhar, mas depois se as pessoas as quebram....

Um jornalista quer fazer uma peça, e não consegue chegar à fala com quem deseja dentro do Departamento de Futebol, mas consegue sempre que outra pessoa fora do departamento fale e depois isso gera problemas.

- ....
- Diga-me quantas pessoas do FC Porto falam?
- Só um, o Rui Cerqueira (Director de Comunicação).
- As únicas pessoas que eu vejo comentar e opinar é o Manuel Serrão, o saudoso Pôncio Monteiro, o vocalista dos Blind Zero (Miguel Guedes) e o José Guilherme Aguiar, e não vejo mais ninguém, e esses quando falam nunca falam mal do FC Porto nem das pessoas que lá estão. Eles valorizam os activos que lá têm, mas no Sporting é ao contrário.

Tirando o Dias Ferreira e o Dr. Eduardo Barroso que assumem as suas convicções, o resto parece que nem sequer querem ter opinião, querem dar-se bem com todos. Estão sempre a criticar, é tudo mau, mau, mau, e isso cria instabilidade.

No último ano em que estive no Porto as coisas correram mal, mas as coisas eram sempre pacíficas. Repare, quando o Maniche é expulso contra o Vitória de Guimarães, os jornais não falavam de outra coisa. O Luisão também foi expulso por dar uma cotovelada num jogador do FC Porto, alguém falou alguma coisa sobre isso nos jornais? Foi na mesma jornada, eles também perderam o jogo, mas eu não vi todo aquele espalhafato.

- Acha que o Sporting tem uma má relação com a imprensa?
- Não, eu acho é que no Sporting toda a gente se dá bem com a imprensa. Tudo o que se passa no Sporting sai na imprensa. Se no FC Porto um jogador se lesiona você sabe alguma coisa? Sabe que lesão ele tem, ou qual o tempo de paragem? Claro que não, mas em Lisboa sabe-se logo tudo.

Isto são coisas que fazem a diferença. As pessoas dizem "os jogadores chegam ao Porto levam um 'injecção' e mudam", não levam nada, chegam a um sítio onde há uma filosofia implementada e isso chega.

- Nessa reunião em Junho de 2010 ficou estipulado que após as derrotas o Sporting treinaria em Alvalade e seria aberto para os sócios. Isso não aconteceu, isso foi devido às más condições do relvado?
- Sim.

- Podemos saber em quem votou no dia 26 de Março?
- Não!

- Mas votou?
- Não. Podia ser hipócrita e dizer agora que votei, mas não votei.

- Em termos de política desportiva, quando constrói um plantel o que procura saber? Quer logo saber qual é a média de idades do grupo?
- Não. Procuro saber a qualidade do plantel. A idade para mim é relativa. As pessoas hoje em dia só querem novidades, querem miúdos de 21, de 20 anos. O Arsenal só tem jovens mas quantos títulos conquistaram nos últimos 6 anos? Eu gosto muito do Arsenal, mas se fosse adepto do Arsenal eu queria era títulos. Ter os melhores jovens e depois não ganhar nada....

Se temos um jogador de 27 anos e as pessoas depois começam a pensar que já vem com alguma idade, então vamos buscar um de 21 anos e depois querem que ele renda logo? Anda tudo à procura de Cristianos Ronaldos e de Messis, mas esses são poucos, e se o clube não estiver bem organizado e estável, mesmo esses jovens não vão render.

- Wenger anda a dizer há seis anos que tem uma equipa jovem mas ao fim de seis anos alguns já não são assim tão jovens e muitos estagnaram...
- Um jogador de 30 anos, ou de 32, 33 ou 34 que venha para a minha equipa e me garanta 30 jogos por época e títulos, esse jogador é que me interessa. Depois se o consegui vender ou não isso não me interessa, o que me interessa é se fui campeão.

Isto depende sempre da politica de cada clube, uns mais pequenos formam jogadores para os vender e assim fazerem um bom encaixe e poderem equilibrar as finanças, outros clubes lutam por títulos. Repare no exemplo do Mónaco que vendeu o Thierry Henry, o David Trezeguet e o Philippe Christanval por um balúrdio, mas esses jogadores antes de sair deram três títulos ao clube.

- O Costinha tinha sonhos de jogadores que gostava de ter trazido em 2010?
- Claro que sim.

- Para além do David Trezeguet?
- Prefiro não remexer mais nesses assuntos, o que importa é que o Sporting agora está a trabalhar bem, as contratações só se sabem na altura exacta e isso é bom sinal, vieram jogadores com qualidade e o que eu quero é que o Sporting esteja bem.

- Algum jogador que aprecie em particular?
- O Schaars, parece-me ser um belíssimo jogador.

- A sua relação com José Eduardo Bettencourt hoje em dia como é?
- É boa, ele para além de ter sido o Presidente do Sporting também é um ser humano...
- Mas é o ser humano que o despediu...
- Obviamente, mas tenho uma relação com ele normal, tenho muito respeito por ele. Na vida quem é que não comete erros?

- Acredita na aposta nas velhas glórias. Um grande jogador não tem necessariamente que ser um grande treinador ou dirigente?
- Veja o caso do Mourinho que não era um grande jogador, mas agora é o melhor treinador do mundo. Eu já reparei que há uma faixa de jogadores que geralmente dá mais como treinadores, são os centro-campistas ou os defesas centrais. Capello era centro-campista, o Guardiola era centro-campista...

- Ancelotti, Rijkaard, Deschamps, Dunga, del Bosque, Marcello Lippi, Hiddink, Van Gaal...
- O Jean Tigana, o Claude Puel, o Paul Le Guen, o Leonardo, há imensos exemplos. O mais importante é olhar para o perfil das pessoas e ver onde vão encaixar. A mim diziam-me que eu devia ser treinador, mas eu achei que se fosse treinador ia ser demasiado conflituoso.

Eu cheguei a dizer isto ao Mourinho, a maneira como ele geriu Balotelli eu não teria paciência para isso. "A maneira como você gere o Balotelli, eu já teria explodido, porque este miúdo está no Inter de Milão, tem 20 anos e ele não sabe onde está".

"Ele já ganha imenso dinheiro e pensa que pode ter uma vida como o Zanetti que é um campeão mas um campeão a sério", e o Mourinho dizia-me que "isso vais aprendendo aos poucos", mas eu sabia que não tinha paciência para isso. A área de direcção desportiva foi uma área que sempre me interessou, a vivência e a gestão de um clube sempre foi algo que me interessou bastante.

- Qual foi o melhor conselho que Mourinho já lhe deu?
- Ser honesto, que é aquilo que ele é. Ele diz na cara das pessoas aquilo que tem que ser dito e depois as pessoas não gostam. Eu não tenho rodeios, eu aceito se quiserem vir ter comigo e dizerem-me num determinado contexto que eu fui um péssimo jogador.

- É verdade que o Servette esteve interessado no Nuno Gomes?
- O que eu disse na altura é que o Nuno Gomes era bom jogador e um bom jogador interessava a qualquer clube. As pessoas ligavam para mim a dizer que o 'Correio da Manhã' escrevia "Maniche no Clube do Amigo" (risos), portanto veja bem o jornalismo que há em Portugal. Foi só mais uma....

Ligaram para mim e eu disse, "epá, vindo desse jornal vocês têm que duvidar sempre". Lá está, eu não posso ter amigos. No trabalho há hierarquias e as amizades aí não entram. O Nuno Gomes podia ter sido uma mais valia para o Servette mas era preciso saber a opinião do Nuno Gomes, quanto é que ele ganhava, se ele queria jogar na Suíça, se o clube tinha condições para lhe pagar, etc.

- O protocolo com o Cercle Brugge vai continuar, fica satisfeito, foi uma iniciativa sua?
- Fico, não foi uma iniciativa minha, isso já vinha do Pedro Barbosa, ainda não estava estruturada mas já existia a ideia antes de eu chegar. Tive a oportunidade de ir duas vezes a Brugge e é um clube muito organizado.

Estar na Bélgica e jogar contra um Genk, Gent, Anderlecht, etc dá um outro andamento aos jogadores saídos dos Juniores em vez de irem para clubes da 2ª Divisão B onde por vezes nem sequer são titulares, mas a gente sabe que no Brugge eles vão ser titulares. É um protocolo, eles vão para lá mas têm que jogar, o que lhes dá outra maturidade e assim crescem como jogadores e como homens.

A prova do sucesso é que alguns clubes com maior poderio financeiro na Bélgica na época passada já estavam interessados em comprar esses jogadores, lembro-me que quando jogámos com o Gent na Liga Europa, no almoço de fraternização o Presidente do Gent nos perguntou porque não os abordámos a eles em vez do Cercle Brugge, e eu respondi-lhe que era porque o Brugge era verde (risos), mas que também era porque o Brugge tinha um treinador que gostava de trabalhar com jovens e que os metia a jogar.

A cidade em si é tranquila e isso para os jovens é o ideal. Em Brugge não há uma discoteca, se quiserem ir a uma têm que fazer 60-70 kms. Gostei de ver a forma como os jogadores com 18 e 19 anos foram acarinhados pelos adeptos.

- Mas o contrato de empréstimo estipula que o Sporting paga mais ou menos consoante o que eles jogarem no Brugge?
- Eles só iam se fosse para jogar. O Cercle andou a ver os nossos jogadores durante quase um ano antes de os vir pedir emprestados.

- Falando ainda da valorização dos emprestados, o William Owusu esteve no Brugge e havia rumores de que já haviam propostas de 2 e 3 milhões de euros por parte de clubes Belgas e Holandeses pelo jogador.
- É como eu disse anteriormente, já haviam interesse de outros clubes.

Quando o Pedro Mendes estava no Servette o Young Boys queria contratar o jogador, mas eu penso que o Pedro Mendes pode ser um dos bons centrais do futebol português e portanto, na altura não se fez nada (não se vendeu o jogador), a prioridade é o jogador crescer para depois voltar ao Sporting.

Quanto ao Owusu, quem pode responder é a estrutura do Sporting, mas a Bélgica está rodeada pela Holanda, França, Alemanha, é um campeonato com visibilidade...

- Um jovem que esteve emprestado e que agora está no Sporting é o André Martins...
- Excelente jogador! O único problema é que as pessoas só olham para a altura, mas o André é pequeno em altura mas é grande a nível de futebol. Grandíssimo mesmo, tem muita qualidade.

"O DOMINGOS ERA DOS JOGADORES QUE EU MAIS ODIAVA PORQUE VINHA A ALVALADE E MARCAVA SEMPRE GOLOS"

- Na qualidade de adepto, agradou-lhe ver Domingos ser escolhido para vir treinar o Sporting?
- Penso que é uma boa opção, desempenhou bons trabalhos nos clubes onde esteve, veio para o Sporting que é um clube diferente, mas ele esteve no Braga onde já tinha alguma pressão. Ele tem a escola do Futebol Clube do Porto, sabe bem aquilo que quer, trabalha bem as suas equipas, tacticamente e fisicamente.

Eu espero que ele dê a sua contribuição, porque o Domingos era dos jogadores que eu mais odiava porque ele vinha a Alvalade e marcava sempre golos, espero que agora ele marque golos em Alvalade liderando a equipa do Sporting que é a minha equipa do coração.

O Domingos era dos meus melhores amigos quando eu estava no Porto. Espero bom futebol e vitórias.

- O Bebé surgiu do nada e foi para o Manchester United, mas nessa mesma divisão surgiu o Diogo Salomão no Real Sport Clube. Como é que surgiu esta contratação?
- Era uma contratação que já estava em andamento quando eu cheguei ao Sporting. Eu sabia que o Benfica também estava interessado no jogador, e eu pedi ao Salomão que me desse tempo para estudar os vários dossiers quando cheguei ao clube, e ele deu-me a sua palavra de que não iria tomar nenhuma decisão antes de eu falar com ele.

Eu fiquei-lhe agradecido por ter confiado em mim e a contratação acabou por se concretizar. Ele é um jogador que tem qualidade mas precisa de crescer, precisa de tempo. Ele chegou e mostrou valor, mas depois se não jogava sempre já diziam que o treinador não prestava. O Salomão tem muito potencial, mas tem que trabalhar porque ele pode vir a ser um dos craques do futebol Português.

Vejam o caso do André Santos, era suplente no Fátima, teve a oportunidade de ir para o Leiria e o Manuel Fernandes apostou nele e eu não tenho grandes dúvidas de que ele vai ser um dos grandes jogadores Portugueses. Valia 100.000 quando eu cheguei e agora já valia 4.500.000 no Transfermarkt. Tudo feito de uma forma humilde, ele nunca se queixa e trabalha sempre muito bem.

- Esperava mais do Diogo Salomão durante a segunda metade do campeonato?
- Não, é preciso ter calma, o Bebé também foi para o Manchester United, lá jogava na equipa B e depois acabou por ir para o Besiktas.

- Já estava à espera do empréstimo do Salomão?
- Não, pensei que ele ia ficar.

- Falando agora do Bruma (Armindo Bangna), falava-se que ele tinha mais que um empresário, falava-se que a mãe dele tinha ido à Academia e que não a deixavam ver o filho...
- Falava-se de muita coisa...

- Está bem identificado com o jogador?
- Eu via o Bruma treinar e acompanhar o treino dos seniores, mas depois o resto ele era um jogador do Departamento de Formação. Espero que ele fique no Sporting porque é um talento, mas em relação ao resto, as pessoas falam muito, escrevem muito e poucas vezes acertam.

- O Costinha chegou ao Sporting com uma imagem de firmeza e de seriedade. É verdade que o Costinha fez os funcionários assinarem um "Código de Ética e Conduta" no final da época 2010 para evitar que houvesse fugas de informação?
- Não! De quê? Isso é mentira. Nem sei de onde é que isso surgiu. Eu não posso obrigar os funcionários a assinar nada. Mais uma mentira.



Texto: André Carreira de Figueiredo.
Imagens: Carlos Alberto Costa/Notícias do Futebol.
Entrevista realizada no Hotel Tivoli Oriente.
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