Nascido a 18 de Fevereiro de 1975, em Bury, Inglaterra, Gary Neville foi um dos melhores laterais direitos do futebol inglês, tendo somado oitenta e cinco internacionalizações pela selecção dos "Three Lions" e jogado dezanove épocas pelo único clube que representou ao longa da carreira, o Manchester United.
Presente em dois campeonatos do Mundo (1998 e 2006) e três campeonatos da Europa (1996, 2000 e 2004), o internacional inglês conquistou duas ligas dos campeões, uma Taça Intercontinental, um Mundial de Clubes, oito campeonatos ingleses e três taças de Inglaterra, entre outros títulos, sendo claramente um futebolista de referência no Mundo do futebol.
Nesta entrevista Gary Neville recorda algumas peripécias da sua carreira desportiva e fala de talentos emergentes do futebol actual como Nani, Anderson, Rafael da Silva e Bebé.
- Existem bastantes expectativas em relação a Rafael da Silva, expectativas de que ele pode ser o jogador que irá herdar o seu lugar como lateral-direito do Manchester United. O que é que nos pode dizer sobre o Rafael da Silva enquanto jogador e como homem?
- O Rafael da Silva chegou a Inglaterra há alguns anos e a primeira vez que o vi jogar, ele tinha apenas 14 anos de idade. Tanto ele como o seu irmão Fábio da Silva são excelentes jogadores e boas pessoas. O Rafael é muito determinado, agressivo, e percebeu o que era necessário para adaptar-se ao futebol inglês.
Obviamente que ele tem a criatividade brasileira para driblar e subir no flanco e penso que ele amadureceu bastante nos últimos seis a oito meses no clube. Tenho a certeza que ele poderá ser o lateral-direito do clube nos próximos tempos. Nunca é fácil dizer por quanto tempo, mas eu penso que o Rafael da Silva tem a habilidade para o fazer por muito tempo.
- Quais são as suas impressões sobre o Bebé? Ele era um ilustre desconhecido em Portugal e, de repente, transferiu-se para o Manchester United. Vê potencial no Bebé que justifique a sua aquisição?
- Eu penso que como qualquer jogador jovem, ele está no clube certo para poder evoluir e além disso trata-se de alguém com potencial. Todos nós vimos a maneira como o Cristiano Ronaldo e o Nani chegaram a Inglaterra e ao Manchester United. Eles eram ambos jovens e inexperientes quando chegaram, mas cresceram no Manchester United com o espírito do clube e na forma em que o Sir Alex Ferguson gosta de fazer evoluir os atletas.
Penso que o Bebé tem potencial e só tem de evoluir da mesma forma, pois, na verdade, ele está no clube certo para se tornar um jogador de top.
- Rivalidades à parte, José Mourinho é respeitado em Inglaterra para além dos muros de Stamford Bridge? Existe a constante especulação de que ele pode eventualmente herdar o lugar de Sir Alex Ferguson. Agrada-lhe essa possibilidade?
- Obviamente que o José Mourinho é respeitado fora do Chelsea. Quando alguém tem o sucesso que ele tem, essa pessoa tem de ser respeitada. Eu penso que em Inglaterra, apesar das rivalidades e da paixão que temos pelos nossos clubes, nós também mostramos respeito pelos sucessos dos outros e sabemos perder com dignidade. Nós não gostamos de perder, mas quando perdemos fazêmo-lo com dignidade.
Em termos de ele ser o próximo treinador do Manchester United, é muito difícil especular, porque nós temos um treinador que parece que vai continuar no clube para sempre, e ninguém sabe onde estará o José Mourinho quando o Sir Alex Ferguson decidir que não quer continuar no Manchester United. As circunstâncias nesse tempo irão decidir quem irá ser o próximo treinador, mas não tenho dúvidas que o José Mourinho iria ter sucesso.
- Quando o Anderson chegou a Portugal em 2006, o empresário dele disse que o jogador só iria ser inferior ao Ronaldinho Gaúcho em termos de sucesso e talento. Sente que a evolução que ele teve no Manchester United nos últimos quatro anos defraudou as expectativas?
- Eu penso que o Anderson, ao longo dos quatro anos em que está no Manchester United, já mostrou do que é capaz. Ele teve lesões que acabaram por dificultar a sua evolução e, para além disso, jogar no futebol inglês é completamente diferente do que jogar no Brasil ou em Portugal, mas ele tem personalidade e está a adaptar-se bem.
Eu penso que com os jogadores jovens demora sempre mais tempo, mas chega uma altura em que eles ficam mais maduros e experientes, tudo fica no lugar certo e eles começam a perceber as coisas que têm de fazer.
Na minha opinião, o mais importante é que ele não tenha lesões, para que possa fazer uma série de jogos e aumentar a sua confiança e os seus níveis exibicionais. Ele estava a jogar muito bem nos últimos três/quatro meses, mas depois voltou a ter uma lesão e isso é algo que trava imediatamente o progresso de um atleta. Sinceramente, penso que o mais importante para o Anderson é ficar livre das lesões.
- Este ano não há um claro favorito para a conquista do Jogador do ano da PFA. Falam, entre outros, do Nani, Nasri, Tevéz, Leighton Baines e van der Vaart. Acredita que este será o ano da total afirmação de Nani e que ele conseguirá vencer o prémio de Jogador do ano da PFA?
- Eu espero que sim, pela suas capacidades e exibições. Eu penso que o Sr está certo no que disse, esta época não tem havido um jogador que se tenha destacado especialmente. O Gareth Bale esteve muito bem nos primeiros meses da época, mas quem sabe quem irá ganhar o prémio...
Ainda assim, o Nani ser um candidato é óbvio porque está a jogar muito bem pelo Manchester United esta temporada e já nos fez ganhar muitos jogos.
- Gostava de ver o Gareth Bale no Manchester United? As pessoas dizem que ele é galês como o Ryan Giggs, esquerdino como o Ryan Giggs...
- Eu gostava de ver o Gareth Bale no Manchester United e penso que se pode dizer isso de vários jogadores no Mundo, mas o Manchester United tem vários atletas de qualidade e é sempre algo desrespeitoso falar de jogadores que é possível contratar, quando temos jogadores no nosso clube que estão a fazer um grande trabalho.
O treinador é que irá decidir quem irá contratar. O Gareth Bale está a fazer uma grande época, mas há imensos jogadores nesse mundo fora que estão a fazer grandes temporadas e nós não os podemos contratar todos.
- Sem contar consigo, quem pensa que foram os melhores laterais direitos do futebol mundial durante o tempo em que jogou futebol, ou seja, entre 1992 e 2011?
- Os melhores laterais-direitos sem contar comigo? (risos) Eu diria que foi o Cafú, sem sombra de dúvida. Ele era um jogador fantástico, enérgico, entusiástico e que teve uma enorme longevidade.
O Cafu jogou os melhores jogos pelo Brasil, ganhou campeonatos do Mundo, jogou imenso tempo no AC Milan... Por tudo isto, penso que ele foi o jogador que mais se destacou naquela posição.
- Quando o Roy Keane abandonou o clube em Novembro de 2005, estava à espera de receber a braçadeira de capitão do Manchester United, ou essa decisão acabou por ser uma surpresa para si?
- Foi uma surpresa, porque o que aconteceu com o Roy Keane foi muito repentino e foi algo que não estávamos à espera que acontecesse. Não estava mesmo nada à espera que acontecesse naquele momento.
- Nestes dias, qual é a sua relação com o Carlitos Tévez? Está tudo normal ou ainda existe alguma animosidade? Houve alguma fricção entre vocês até porque ele trocou o Manchester United pelo rival Manchester City...
- Tudo normal, eu não tenho falado com ele desde que ele saiu do Manchester United, mas ele é um grande jogador. Existem coisas que acontecem nos jogos, quando os jogadores se defrontam e a vida é mesmo assim, mas eu não tenho nenhum problema com o Carlitos Tevéz.
- De todos os títulos que conquistou, qual foi o mais especial para si?
- A Liga dos Campeões em 1999, pela maneira como nós a ganhámos na final diante do Bayern Munique, por termos eliminado o Inter e Juventus nos quartos de final e meias-finais e por termos um grupo com o Bayern de Munique e o Barcelona...
Foi uma caminhada muito complicada e depois ganhámos a competição nos últimos dois minutos da final, naqueles que posso descrever como os dois minutos mais fantásticos que tive num campo de futebol. Por todas essas razões, foi claramente o meu título favorito.
- Em toda a sua carreira como lateral-direito, qual foi o extremo-esquerdo mais difícil que defrontou? E não vale dizer que foi o Ryan Giggs nos treinos....
Provavelmente foi (risos)... Eu costumo brincar com o Cristiano Ronaldo que quando o defrontei no Euro 2004 e no Mundial 2006, o controlei muito bem nesses dois jogos, mas o Marc Overmars também foi sempre muito difícil de marcar. Penso que são os dois jogadores que me consigo lembrar neste momento que me criaram mais dificuldades.
Obviamente que tive problemas em alguns jogos com alguns outros jogadores, mas nada que me preocupasse particularmente.
- Conhece um jogador do Manchester United chamado Ravel Morrison?
- Sim.
- Ele é um grande talento, mas tem tido bastantes problemas fora do campo. Quais são os conselhos que o Gary lhe pode para que este jovem jogador se mantenha no caminho certo?
- Em relação aos jovens, nós temos de estar perto deles e perceber que eles vão ter problemas e experiências que não irão acontecer da forma como esperamos. Jogando futebol durante quinze ou vinte anos ao mais alto nível, vais ter maus momentos e desilusões pessoais e profissionais.
A vida é mesmo assim e nós temos que ajudar esses jovens quando esses problemas ocorrerem. Ainda assim, o conselho que lhes posso dar é que tentem sempre fazer as coisas de forma correcta, que sejam profissionais, disciplinados e respeitadores, mas percebam que irão sempre cometer alguns erros.
- Os especialistas disseram muitas vezes ao longo da sua carreira que você não tinha as qualidades físicas para ser um jogador de topo, mas que conseguiu superar isso com muito trabalho e dedicação. Nesse caso, quais foram as qualidades que o Gary sente que o catapultaram para esse nível de excelência? Humildade, ética de trabalho, disciplina, ambição... O que é que fez a diferença na sua vida profissional?
- Para ser honesto, eu tinha determinação para querer jogar futebol e para dar sempre o meu melhor. Tinha a capacidade de aprender, ouvir, respeitar e de ser disciplinado. Eu também sempre fui muito forte mentalmente, pois o sucesso e o insucesso nunca me incomodaram demasiado e eu mantive sempre a minha cabeça bem levantada.
Eu era limitado em termos técnicos em comparação com outros jogadores, mas isso era eu e eu fui sempre verdadeiro comigo próprio e eu nunca tentei ser alguém que não era. Quando eu joguei no Manchester United, eu actuei com grandes jogadores como o Cristiano Ronaldo e eu estava lá para os proteger, para servir e para garantir que eles tivessem a plataforma e a base para que pudessem jogar o seu futebol.
Eu joguei com o David Beckham, obviamente, e com o Antonio Valencia e na minha opinião, a minha função era oferecer-lhes a bola jogável o máximo de vezes por jogo. Eles eram os jogadores que iriam ganhar o jogo para mim e o meu trabalho era fazer com que a bola lhes chegasse e garantir que eles não tinham de defender o jogo todo.
- Tem algum arrependimento quando pensa na sua carreira? Há alguma coisa que teria feito de forma diferente se pudesse voltar atrás?
- Eu não tenho nenhum arrependimento, porque nós temos de aceitar que vão haver desilusões. Eu gostaria de ter ganho alguns jogos que perdi, gostava de ter ganho a Premier League todos os anos, gostava de ter conquistado a Liga dos Campeões todos os anos, mas não tenho arrependimentos, porque dei sempre tudo o que pude.
- Mas há alguma coisa que tenha feito quando era mais novo, que não teria feito quando já era um jogador mais experiente?
- Obviamente que cometi erros. Fui expulso três vezes e todas essas ocasiões podiam ter sido evitadas, muitas vezes disse e fiz coisas que não devia ter dito ou feito, mas arrependimentos não tenho, porque é um percurso de vida e tu cometes erros ao longo desse caminho e fazes coisas que não devias ter feito, mas não te podes arrepender disso, porque esses erros fazem parte do teu carácter e tu aprendes com eles. Tenho a certeza que vou cometer mais erros à medida que for envelhecendo e deus queira que eu tenha muitos anos pela frente para continuar a aprender.
Entrevista realizada no dia 14 de Março de 2011 na Football by Carlos Queiroz.
Texto: André Carreira de Figueiredo e Ricardo Ferreira Figueiredo.
Imagem: NF.
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