Entrevistas
 
13:20 sexta, 23 de dezembro de 2011
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Entrevista com Paulo Futre

Há muitos anos visto como um dos grandes nomes do futebol português e certamente um dos melhores jogadores que Portugal já conheceu, Paulo Futre é também hoje um fenómeno mediático desde que processou o seu regresso às lides mediáticas na campanha eleitoral para a presidência do Sporting, sendo hoje acompanhado e comentado mesmo pelos jovens que não tiveram a oportunidade de o ver jogar, tendo numa entrevista prestada ao NOTÍCIAS DO FUTEBOL apresentado uma forte variedade temática.

Paulo Futre comentou vários temas directa e indirectamente ligados à sua carreira, incluindo assuntos ligados ao futebol espanhol no qual evoluiu como em Portugal, tendo feito menção não só aos clubes nacionais como também à actualidade da Selecção Nacional.



- Paulo, vamos começar pela pergunta mais importante de todas e pela qual os adeptos anseiam por uma resposta. Tu em Março de 2009 prometeste que ias comprar o CD dos "Friday"(banda de Paulo Futre Jr). Chegaste a fazer isso?
- Não, porque eles tiveram um problema, coisas da juventude... foi uma pena eles terem terminado e agora não sei se eles se vão juntar, mas era incrível porque eles tocavam bastante bem, tinham boas músicas e só precisavam de uma oportunidade. Não cheguei a comprar o CD porque eles chatearam-se, eles eram quatro membros na banda e houve problemas lá dentro, não me perguntes quais, mas foram "problemas de juventude".

O Paulinho agora está na universidade, saca grandes notas, quer ser designer e por agora vai seguir por aí embora tenha sempre aquele gosto pela música.

- Tu tens um sotaque muito curioso....
- (risos) Nem Português, nem Espanhol, nem... o meu sotaque é Ibérico!

- Eu lembro-me de ti na conferência de imprensa do Dias Ferreira no Radisson...
- Estavas lá!? Essa conferência já é mítica.
- Estava, estava mesmo atrás do Nuno Luz. Tu chamas-lhe...
- (risos) "O Esgrunho".

- Esta zona (Margem Sul) é muito rica em jogadores, Chalana, Manuel Fernandes, Futre, Figo...
- Sim, tudo seguido, Montijo, Barreiro e Almada. Temos o Ricardo que é aqui do Montijo. Há mais, o Fernando Mendes, Carlos Manuel, Manuel Bento... (NDR: Manuel Bento é da Golegã mas despontou no Barreirense).

- Vês o Fábio Coentrão com capacidade para se impôr no Real Madrid?
- Vejo, se olhares bem para o plantel do Real Madrid vês que lhes falta outro lateral esquerdo além do Marcelo e isso é curto para disputar tantas competições. Na época passada jogou o Arbeloa a lateral esquerdo mas ele não é um lateral esquerdo. Para além disto, o Fábio é um grandíssimo jogador.

- Quando eu entrevistei o Octávio Machado e lhe perguntei se havia jogadores hoje em dia semelhantes ao Paulo Futre, ele disse que o Coentrão fazia lembrar o Futre quando era jovem. Concordas com essa análise, vês algumas semelhanças?
- Somos os dois canhotos, somos muito verticais, ele é lateral mas acho que pode jogar a médio e extremo.

Talvez também pela rapidez, ele é corajoso, nunca tem medo de ir para cima do adversário no 1 contra 1, e é um jogador que desequilibra sem dúvida alguma.

- O Octávio disse-me que tu quando eras mais jovem que a tua alcunha era o "Ai-Ai"....
- Isso era a alcunha no FC Porto. Isso é porque quando estavam a gozar comigo eu respondia sempre "ai-ai", se me chateavam era logo "ai-ai". Era a minha maneira de fugir quando a conversa não interessava (risos).

- Tens alguma relação especial com o Rui Santos, pergunto isto porque eu li uma entrevista que ele fez contigo no Jornal A BOLA em 1987 e está "deliciosa", denota-se ali alguma cumplicidade entre os dois?
- Depois de Rocheville quando eu tinha 11 anos ele foi talvez o primeiro jornalista que escreveu sobre mim. Tinha eu 11 ou 12 anos e ele escreveu no jornal "Cuidado com este jogador!". Como deves imaginar, foi a primeira vez, nós ficamos entusiasmados e levamos o jornal para escola para mostrar aos nossos amigos. Pelo Rui Santos eu tenho um grande respeito e.... ele acertou, acertou com aquela frase, não é!?

- O Rui Santos disse na televisão que o Falcao tinha sido o melhor ponta-de-lança que já tinha visto jogar no FC Porto, como interpretas esse comentário?
- Respeito. O Falcao fez uma grande época, é a opinião de um grande analista mas... houve grandes, grandes pontas-de-lança...

- Fernando Gomes, Mário Jardel...
- Sim, o Jardel não era bem ponta-de-lança, podia jogar a ponta-de-lança mas para mim ele era mais extremo ou 2º ponta-de-lança. Mas ponta-de-lança puro no meu tempo era o Gomes, sem dúvida, era um fora de série.

- Consegues ver o Hulk a jogar num Real Madrid ou num Chelsea? Ele consegue produzir nesses campeonatos o que faz aqui?
- Sim, tirando o campeonato Italiano onde há menos espaços, eu acho que ele pode fazer em Espanha, Inglaterra ou até mesmo na Alemanha aquilo que faz aqui.

- No Barcelona seria difícil pela equipa que têm, mas no Real Madrid podia ser, mas se eu tivesse que escolher um clube para o Hulk seria o Manchester...
- United?
- United, sim  O Manchester com o Hulk e o Rooney era uma dupla fantástica!

- O FC Porto com o André Villas-Boas e reforçado com dois defesas de qualidade era equipa para chegar à “Final Four” da Champions?
- Sim. Claro que há muitos factores a ter em conta, como a sorte, não ter lesões, etc.

- Que responsabilidades tiveram o John Toshack e o João Rocha na tua saída de Alvalade?
- Com o João Rocha nunca falei com ele, mas diria que 99% da responsabilidade é do Toshack. Ele é que era o treinador, ele é que me devia dizer que não contava comigo. No Sporting nunca ninguém falou que não contava comigo.

Saíram na imprensa muitos rumores de que eu ia para a Académica, mas o único que falou comigo foi o Toshack. Eu através do dirigente Armando Biscoito pedi um aumento ao João Rocha e a resposta foi que "eu era maluco", mas eu nunca falei com o João Rocha, e anos depois até me disseram que o Armando Biscoito nunca falou com o João Rocha, pensava que eu estava a fazer bluff. Não sei qual foi a postura do João Rocha sobre este tema.

- Nunca chegaste a falar com o João Rocha depois de saires do Sporting?
- Nunca mais.

- Quanto é que ganhavas no teu último mês no Sporting e quanto é que ganhavas no teu primeiro mês no FC Porto?
- Ganhava 70 contos por mês no Sporting e fui ganhar 9.000 contos por ano no FC Porto.

- Tinhas contracto no Sporting? Como conseguiste sair?
- Razões psicológicas, acho que foi a primeira vez e a última vez em Portugal e no Mundo que isto aconteceu e acho que o advogado do Porto naquela altura era um génio.

- Como se chamava ele?
- Aguiar...
- Guilherme Aguiar?
- Sim, acho que foi o Guilherme Aguiar. Eu tinha 7 ou 8 anos de contracto com o Sporting.

- E ele alegou exactamente o quê?
- Ele disse que se eu ficasse eu podia dar em maluco ou num louco, não é?

- (risos) Tecnicamente foi o que o Armando Biscoito te disse, que tu estavas "louco", portanto, já aí tinhas uma testemunha de carácter favorável dentro do próprio clube...
- Sim, mas podia dar em louco. Sim, bem visto, estavam a dar-me razão (risos).

- Estás lembrado de ir ao programa "Tal Canal" do Herman José?
- Sim, perfeitamente, foi a minha primeira vez.

- Depois havia a canção do "Futrezinho" e a Isabel dizia que tu não podias ir à tropa....
- Isso já foi há quase 30 anos...

- Ele perguntou-te se te tinhas atirado para a piscina para sacares penalties e tu dizias que sim.
- Estava nervoso, mas diverti-me bastante, ele a dada altura caiu para trás na cadeira.

- Que opinião tens do Ruud Gullit que em 1987 te ficou com a Bola de Ouro?
- Tenho uma grande admiração por ele, perdi para um grande campeão, mas fiquei magoado pelo jornalista português que votou no Gullit. Eu estava à frente e o jornalista português era o último a votar e votou no Gullit quando podia ter votado no Emílio Butragueno, mas votou no Gullit que me ganhou por 8 pontos.

- Quem foi esse jornalista?
- Não me recordo.
- É curioso que o Eusébio foi Bola de Ouro em 1965 e no ano seguinte um jornalista português votou no Bobby Charlton que terminou 1 ponto à frente do Eusébio.
- Estás a ver? Há três (Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo) mas hoje em dia não vale a pena dizer mais nada.

- Quando olhas para os extremos hoje em dia vês algum que te faça lembrar a ti próprio? Jogadores com o Arjen Robben?
- Sim, o Robben. O Messi, eu também tinha coisas do Messi, naquele momento de ir para cima deles, especialmente quando caía no lado direito, também tenho algumas parecenças com ele.

- És adepto de algum extremo hoje dia?
- O Messi, o Robben, são dois esquerdinos que podem jogar dos dois lados como eu fazia.

- Que opinião tens do Alexis Sanchez, um jogador que tu querias trazer para o Sporting?
- É um fenómeno. É um jogador que tinha lugar em qualquer equipa. É um jogador que desequilibra, é potente, é forte no 1 contra 1, é imparável.

- Na época passada o Milan sagrou-se campeão da Serie A ao fim de 7 anos de espera. Tu jogaste no Milan, que opinião tens dos reforços Ibrahimovic, Robinho, Boateng e de "jogadores bandeira" como o Alessandro Nesta?
- Foram a equipa mais regular....

- Mas ficaste "Milanista" ou serás sempre adepto da AS Roma?
- Serei sempre da Roma, mas depois de passar por Milão ganhei um grande carinho pela organização e pelas pessoas como Ariedo Braida, Adriano Galliani e Sílvio Berlusconi. Não podendo ganhar o Milão, prefiro que ganhe a Roma, excepto durante os dois anos em que o Mourinho esteve no Inter.

- De onde vem essa paixão pela Roma e pelo Bruno Conti?
- Vem do campeonato do Mundo de 1982. Ele era canhoto, fez um excelente mundial e como ele jogava na Roma eu tentei seguir a carreira dele.

- Se te dissessem há 5 anos atrás que hoje em dia haveria dois jogadores no Mundo a marcar 50 golos por época tu acreditavas?
- São dois foras de série, surgiram ao mesmo tempo, estão os dois no mesmo campeonato...

- Podemos dizer que um deles foi para Espanha por causa do outro, e que um sem o outro não teria a motivação para continuar a evoluir...
- São dois clássicos, é o Real Madrid vs Barcelona e o outro dérbi é entre Ronaldo e Messi. Todos os Domingos é uma autêntica loucura em Espanha. Acho que um puxa pelo outro e isto também é bom para a Liga Espanhola que assim é seguida por mais gente.

- Achas que alguns campeonatos incluindo o Português beneficiavam de terem menos jornadas mas terem mais encontros entre as equipas de topo. Eventos como o "Tetra-Clássico" entre o Real e Barça em Abril não atraem muito mais atenção para a indústria?
- Tínhamos que ter menos equipas para isso acontecer e se assim fosse muitos jogadores vão para o desemprego, mas do ponto viste mediático seria o ideal.

- Acreditas que daqui por uns anos vamos olhar para 2010/11 como tendo sido uma época de ouro no futebol ibérico com um Super-Barça e um Super-Porto, também com um Real Madrid e um Benfica muito fortes e com quase uma dúzia de clássicos?
- Ver duas equipas ibéricas como o Barcelona e o FC Porto ganharem a Champions e a Liga Europa na mesma época é algo que pode ficar conhecido como o "ano ibérico".

- Quando foste para o AC Milan em 1995 o "Allenatore" era o Fabio Capello, como foi trabalhar com ele?
- Foi óptimo apesar de eu passar mais tempo no posto médico do que a trabalhar com a equipa. Mas vi o carácter, a personalidade, o ganhador e motivador que ele é.

- O Arrigo Sacchi diz que o Mourinho é semelhante ao Capello mas com mais cultura táctica e com mais criatividade...
- Tacticamente e psicologicamente são dois treinadores que trabalham muito bem a equipa. Não gostam de correr riscos. O Zé é um motivador nato, eles são treinadores que com qualquer pequeno pormenor conseguem motivar os seus jogadores. São grandes campeões.

- Tu e o Roberto Baggio chegaram ambos ao Milan em 1995, como foi trabalhar com o Bola de Ouro e FIFA World Player of The Year de 1993 e igualmente um jogador que muitos pensavam ser o sucessor de Maradona, aprendeste algo com Baggio?
- Eu já tinha 29 anos, já não podia aprender nada com ele, mas tive uma grande amizade com ele, vi coisas do outro mundo, pois era de facto um grande craque. Era um autêntico fenómeno e penso que já tinha feito 3 ou 4 operações ao joelho, penso que era no menisco, ele nunca foi operado ao ligamento cruzado, mas ele já estava massacrado com lesões. Ainda assim ele fez épocas incríveis, e depois no Brescia ainda fez coisas do outro mundo.

- E o Franco Baresi que muitos dizem ser o grande libero pós-Beckenbauer?
- Concordo com essa ideia. Era um grande capitão, ele falava com os olhos, todos os colegas lhe tinham um respeito enorme. Dentro do campo era um autêntico génio.

- Por essa altura o Paolo Maldini ainda jogava na lateral canhota. É justo dizer que ele é o melhor lateral esquerdo dos últimos 30 anos?
- Ele e o Roberto Carlos, são diferentes mas...

- O Rui Jorge que percebe uma coisa ou outra disto, ele diz que prefere o Maldini....
- Talvez o Maldini seja mais completo que o Roberto Carlos, pois jogava também com o pé direito, fisicamente era muito mais forte, podia marcar golos de cabeça, e podia também jogar como central. Grande profissional e também uma grande pessoa.

- Qual foi o melhor jogador com quem já jogaste até hoje na tua equipa? O Madjer?
- Se tiver de todos estes incríveis craques com que joguei, se tiver que escolher só um, escolhia o Madjer.

- (risos) Como já sabia que ias dizer isso, peço-te então que digas mais um...
- No Milão, no Marselha também, tantos craques por onde escolher.... podia dizer o Bernd Schuster que era uma coisa do outro mundo, era um jogador fantástico, foi o único estrangeiro que jogou nos 3 grandes em Espanha.

- No Marselha tinha jogadores incríveis, o Alen Bokšić, o Rudi Völler, o Didier Deschamps. No Milão tinha o Baggio, o George Weah...
- O Dejan Savićević, o Zvonimir Boban....
- Grandes, grandes craques.

- Qual foi o defesa que mais te complicou a vida?
- Talvez o Chendo (NDR: do Real Madrid). Ele não era um "assassino", era um defesa "nobre", tivemos muitas batalhas, ele marcava-me sempre "homem a homem", umas vezes ganhei eu, umas vezes ganhou ele, mas ele era um defesa incrível. Era um jogador que jogava "limpo" apesar de ser duro, mas em todas as nossas "guerras" ele nunca me fez uma entrada "assassina" para me magoar como era normal alguns fazerem naquela altura no futebol espanhol.

- Relativamente à transferência do Figo para o Real Madrid, tu e o José Veiga foram ambos à ACS ter com Don Florentino, podias explicar como tudo se processou?
- Foi uma operação que foi um autêntico milagre se tivermos em conta tudo o que a rodeava, porque o Lorenzo Sanz....
- Tinha ganho duas Champions em 1998 e 2000.
- E a partir daí ninguém pensava que alguém fosse contestar a sua liderança nas eleições. Depois queriam o Figo cuja cláusula custava 10.000 milhões de pesetas mais o IVA, era uma operação sem lógica nenhuma.

- Qual foi a primeira coisa que disseste ao Florentino Pérez quando percebeste o que ele queria?
- (longa pausa) A primeira coisa que eu pensei era que estava nos "Apanhados" (risos). Inicialmente pensei que se pudesse tratar de um "aventureiro" a querer ganhar alguma publicidade, mas depois olhei à minha volta e percebi que se tratava de uma proposta séria.

- Quando falaste com o Figo?
- O representante dele era o Veiga, eu só falei com ele dois dias depois. Ele estava "queimado" com o Joan Gaspart porque vários jogadores recebiam mais do que ele, e eu disse-lhe algo que nunca mais me esquecerei, "olha, estamos no ano 2000 e estamos no Campeonato da Europa e eu deixei de jogar há 2 anos e nem sequer me convidaram para um jogo de despedida. Tu sabes que eu sou o teu ídolo e amanhã quando te retirares vai te acontecer a mesma coisa".

- Quiseste mostrar-lhe que a glória era efémera e que ele tinha que capitalizar?
- Ele próprio sabia que esta era uma oportunidade única para ganhar muito dinheiro, mas isto envolvia.... eu não sei se isto era uma questão de vida ou de morte, mas isto não era fácil para um ser humano, e para mim o Luís é um campeão porque eu na situação dele não ia para a frente porque isto era uma questão de vida ou de morte.

- Tu foste à Sardenha com o Jorge Gomes e com o Veiga para convencer o Figo quando ele começou a hesitar?
- Sim, era uma situação muito difícil para ele e para a sua família. Uma situação de alto risco pois ele naquela altura estava a ser ameaçado de morte e ele já era pai.

Eu com 27 anos tive oportunidade de ir para o Real Madrid, tive o contracto em cima da mesa e fui talvez dos poucos a dizer não ao Real Madrid, porque seria um grande risco para mim e para a minha família pois iria viver numa cidade onde fui mais do que amado pelos adeptos do Atlético.

- No escritório do Veiga em Lisboa o Figo fez exigências de última hora ao Florentino Pérez, inclusive disse que queria que o Sá Pinto fosse com ele para o Real Madrid?
- Isso tem uma explicação muito fácil, o Figo era o inimigo público nº1 do Real Madrid e do Roberto Carlos. Os inimigos do Figo estavam dentro do balneário do Real Madrid.

- Ele tinha receio de ser mal recebido?
- Sem dúvida, ele era o símbolo do Barcelona. E o Figo depois de horas a negociar pediu ao Florentino para trazer o Sá Pinto para ele ter protecção dentro do balneário, e depois ironicamente o Raul tornou-se um dos melhores amigos do Figo.

- Tu numa conferência disseste que não podias inventar(mentir) nada pois eras cronista do melhor jornal do mundo, a MARCA. Como começou a tua associação à MARCA?
- Praticamente desde que me retirei, mas mais assiduamente desde 2004, mas nos últimos 2 anos sempre que joga o Atlético de Madrid eu faço a minha crónica, mas mais do que no jogo eu foco-me numa história em redor do jogo...

- Mais do que analista tu és um contador de histórias?
- Sim!!

- Os "Marquistas" preferem ler o (Santiago)Segurola a fazer a análise e de ti preferem mais saber do teu "insight" de ex-jogador e peripécias do passado contra aquele adversário?
- Depende do momento de cada situação e das histórias que há para contar sobre aquele jogo ou de quando eu jogava naquele campo, mas sempre relacionado com aquele adversário.

- E a tua associação com a Al Jazeera?
- Começou no Europeu de 2008, e tenho vindo a colaborar com eles, e tem sido uma grande experiência.

- Em 1993 com 27 anos sais do Marselha e tens oportunidade de ir para o Real Madrid, quem foi que te fez o convite?
- O presidente, o Ramón Mendoza.

- Que te ofereceram?
- Estava tudo, era só assinar, mas quando olhei para os meus pequeninos (Fábio Futre e Paulo Futre Jr), se tivesse assinado os meus filhos não tinham vida, eu hoje não podia viver em Madrid, eu hoje não seria considerado o melhor jogador de sempre do Atlético Madrid. Eu disse que não e acho que fiz bem.

- Tu deste uma entrevista a comemorar os 23 anos da conquista de Viena em 1987 e curiosamente disseste que foste um dos melhores jogadores do mundo mas disseste também que tinhas sido um finalizador medíocre.
- Não digo medíocre, (longa pausa) eu podia ter feito muitos mais golos mas eu era um jogador que preferia fazer assistências.

Naquela jogada que fiz contra o Bayern, é uma jogada de um autêntico génio, muita gente pensa que eu quero dar a bola ao Madjer, mas não, eu quero finalizar, eu quero fazer golo. Mas a finalização é muito atrás, bate-me no calcanhar, é medíocre, é de jogador da distrital. Uma jogada de autêntico génio e uma finalização de distrital, medíocre...

Eu podia ter feito muitos mais golos, mas fui talvez um dos mais grandes assistentes da história, o "passe da morte", e também os penalties, eu provocava 12 a 15 penalties por ano.

- Espanha tem a 12ª economia mais forte do mundo, nós em Portugal é o que se vê. Tu disseste em tempos que a diferença entre nós e eles é que cá falasse muito e lá trabalha-se muito.
- Em Espanha são mais agressivos e arriscam mais, enquanto nós somos mais calmos, mais tranquilos, pensamos muito antes de dar o primeiro passo, somos mais tímidos em termos de carácter.

A nível de negócios eles são muito mais atrevidos, pensam menos que nós, não têm medo de arriscar. Faz parte da nossa mentalidade, nós passamos mais tempo a falar mal do vizinho do que a trabalhar. O Espanhol produz, depois faz uma festa, e depois talvez é que ele fala mal do vizinho, ou seja, à Quarta ou à Quinta, enquanto nós à Segunda-Feira já falamos mal do vizinho e depois é que vamos trabalhar. Quem diz Espanhóis diz as Espanholas também.

- Qual é a tua relação com o Pedro Passos Coelho?
- É meu amigo, mas isso não quer dizer que eu o apoie. Conheço o Pedro há muitos anos, tenho muito respeito por ele, outra coisa é o projecto que ele tem, e eu vou sempre mais pelas pessoas do que pelos partidos.

- Vês algum paralelo entre a tua história e a do Silvestre Varela e João Moutinho que ora não vingaram no Sporting e vingaram no Porto, ou tiveram sucesso no Sporting mas tiveram muito mais sucesso no FC Porto?
- Sim, eu também não me posso queixar pois só estive um ano no Sporting. Nas camadas jovens do Sporting tive muito sucesso, e no único ano nos seniores eu ainda tinha idade de júnior e fui chamado à selecção A e joguei muitas vezes na primeira equipa do Sporting. Fui o internacional A mais jovem de sempre.

O Varela e o Moutinho "rebentaram" no Porto, mas eu só estive um ano no Sporting, e a minha progressão estava a ser fantástica.

- Em relação ao Moutinho creio que houve um dirigente que até lhe chamou de "Maçã Podre", os adeptos chamaram-lhe de "Judas" e "traidor". Contigo o que se passou durante o verão de 1984?
- Foi incrível, de certeza absoluta que os dirigentes não gostaram.

- Partiram os vidros da casa da tua mãe?
- Estive 6 meses sem poder vir aqui. Fizeram-me a vida impossível cá em baixo. Lá em cima como eu era de Lisboa também me fizeram a vida difícil lá em cima até que ao fim de 4 meses me consagrei.

Houve uma altura em que eu era odiado aqui em Lisboa e era odiado por alguns no Porto porque eu era do Sul, e naquela altura havia muito mais rivalidade do que há agora.

Nesse plantel só lá estava o Augusto Inácio e o Eduardo Luís no que a jogadores de Lisboa diz respeito. O Eurico era cá de baixo mas não era de Lisboa.

- Escreviam ameaças na porta da casa da tua mãe aqui no Montijo?
- Sim, um dia ela ligou para mim a chorar e eu dizia-lhe que podíamos comprar outra casa e que ela ia sair dali. Esse dia ficou-me marcado no coração por causa do sofrimento da minha mãe.

- Tiveste envolvimento na vinda do Nicolas Anelka para o Real Madrid?
- Sim.

- Porque é que ele não vingou?
- Não vingou como outros não vingaram, mas ainda assim conseguiu ganhar a Champions.

- Se eu tivesse que escolher os teus 3 jogos mais emblemáticos diz-me se seriam estes três.
- Ok.
- A conquista de Viena em 1987?
- Sim.
- O 2-0 ao Real Madrid na final da Taça do Rei em Junho de 1992?
- Sem dúvida!!
- O 4-2 na Luz no jogo para a Super-Taça em Novembro de 1987 no qual fizeste 2 golos e fizeste duas assistências, uma para o Madjer e outra para o Fernando Gomes?
Este não porque eu adoro o Neno que é um grande amigo meu e ele falhou num golo e a primeira coisa que fiz no final do jogo foi ir dar-lhe um abraço.

Foi um grande jogo, mas tem sempre esta parte em que o Neno falhou num golo e ele é um grande amigo meu. Prefiro antes a final da Taça de Portugal, foi tremendo, foi um Benfica vs Boavista. Tive outros jogos grandes, como o jogo em casa com o Dynamo de Kiev (NDR: Abril de 1987) e também tive outros grandes jogos em Espanha.

Saí pela porta grande em Valência, em Bilbao, em Barcelona, ou seja "com o rabo e as duas orelhas", ou seja, a ser aplaudido pela equipa adversária o que é uma coisa única. Na final da Taça contra o Boavista fiz dois golos, duas assistências, um penalty!!

- Olhando para ti quase fico com a ideia que ganhar a Taça do Rei de Espanha significou mais do que ganhar em Viena?
- São momentos diferentes. Tens que estar na minha situação, tens que conhecer a "afición" do Atlético de Madrid. Aquela Taça do Rei ganha ao Real Madrid em pleno Bernabéu representa muito mais do que uma Champions.

A "afición" do Atlético é “anti-Madridista”, tal como a do Real é “anti-Barcelona”, a "afición" do Atlético está sempre feliz desde que perca o Real Madrid.

Eu era o capitão, eu levantei a Taça do Rei de Espanha, ele entregou-me a Taça, é um sentimento único....

- Sê sincero, trataste o Rei por "Tu"?
- Não, não, não.

- Mas ao Cavaco Silva trataste-o por tu, não foi?
- Ao Mário Soares tratei-o por "Sr. Presidente", mas talvez, não sei, a gente em Espanha é diferente...

- O Iker Casillas até dá beijinhos à Rainha.
- Então, e o Puyol que recebe a Rainha no balneário com uma toalha, se aquilo cai... ia preso, não é?

- Que achaste da prestação de Portugal no Mundial de 2010? Eu li declarações tuas em que foste algo crítico do Queiroz.
- Porque não entendi, e ainda hoje não entendo porque é que ele mudou tanto. Jogámos mas empatámos contra a Costa do Marfim mas fizemos um bom jogo contra um rival difícil. Depois manteve a equipa contra os Coreanos onde ganhámos por goleada, e depois vem o Brasil e a Espanha e ele muda completamente. Meteu o Ricardo Costa a lateral direito, mete o Duda a lateral esquerdo, fez ali muita confusão, desconcentrou tudo.

O campeonato do mundo é uma competição curta, se ganhamos 7-0 (NDR: Miguel e Coentrão nas laterais) então é para manter. Aquela equipa ganhava ao Brasil e evitávamos a Espanha.

Manteve o Ricardo Costa como lateral direito quando tinha o Miguel que conhece muito bem o David Villa, também tinha o Paulo Ferreira e ao menos assim jogava com laterais puros. A pergunta que eu lhe queria fazer é porque mudou tanto depois de uma vitória por 7-0? Não havia necessidade de fazer poupanças numa competição tão curta.

- Já todos conhecemos a tua alcunha de "El Portugués", mas também havia a expressão "Futrebol".
- Num daqueles jogos em que eu tivesse partido tudo era normal usarem esse título.

- Tu ganhaste a "Champions" com 21 anos o que é invulgar...
- (interrompendo) Invulgar não é porque muitos a ganham com essa idade, invulgar é ser protagonista, ser a grande figura com essa idade.

- A tua conquista mais importante foi a Champions aos 21 anos...
- Sim, sim.
- Tu ao contrário do Figo não tiveste uma carreira muito longa até aos 37 anos, retiraste-te aos 32 e começaste a ter problemas de lesões aos 27...
- Sim.
- É relativamente fácil dizer que a melhor época do Cristiano Ronaldo foi a de 2007/08 e a do Figo foi a de 1999-00. O teu auge quando foi?
- O ano que estive no Sporting, os três anos que passei no Porto, os seis anos no Atlético Madrid e depois os seis meses no Benfica. Estava num excelente momento até aos 27 anos, até à primeira operação.

Eu lá em Espanha eu ao fim do 5º jogo já estava consagradíssimo, e depois em Outubro fomos ganhar 4-0 ao Bernabéu.

Porque é que eu não ganhei mais títulos em Espanha? Numa primeira etapa aparece-me a "Quinta del Buitre" e depois apareceu-me o "Dream Team" do Cruyff. A somar a isso eu tinha o presidente mais polémico do mundo, no vocabulário dele não existia "Paciência", nunca.

Perdíamos 2 ou 3 jogos e o treinador ia para a rua e assim era impossível ter um projecto, mas ainda assim ficámos muitas vezes em 2º e em 3º a lutar até à última jornada.

A espinha encravada na minha garganta foi não ter ganho o campeonato em Espanha e nunca ter feito nada importante com a selecção portuguesa numa competição importante.

- Tu falaste anteriormente da "Quinta del Buitre" e curiosamente na MARCA não sei se foi o (Santiago)Segurola ou o Henrique Ortego que disseram que a equipa que melhor jogava antes do Barça de Guardiola era a "Quinta del Buitre" de Butragueño, Manolo Sanchís, Míchel, Pardeza e Martín Vázquez, curiosamente também essa era uma equipa com muitos canteranos.
- Era uma equipa genial, naquela altura não era como hoje, só podiam jogar dois estrangeiros, era formada por espanhóis e foi lá que surgiram estes fenómenos que falaste. O Pardeza jogou menos com eles e depois fez a sua carreira em Zaragoza. Especialmente os outros quatro foram jogadores incríveis e que marcaram uma geração.

Talvez tenha sido a equipa com a qual o futebol foi mais injusto, porque tal como a de Guardiola eles jogavam um futebol total, foi talvez das equipas grandes na história do futebol a única que nunca conseguiu conquistar a Champions.

- Existe uma tendência natural na imprensa desportiva para se procurar o novo Maradona. Ariel Ortega, Diego Latorre, Carlitos Tévez, Saviola, Aimar, Marcelo Gallardo, Riquelme, D'Alessandro, Carlos Marinelli, etc. Mas talvez se possa dizer que agora finalmente surgiu o "Novo Maradona". Falo obviamente de Lionel Messi.
- Tem um poder de concretização incrível. Eu acho que se ele tem a sorte de ganhar um mundial...
- Já não havia discussão?
- Sim. Ele só tem 24 anos, se ele tem a sorte de ganhar um mundial penso que podemos estar a falar do melhor jogador de sempre. Mas se o Cristiano ganha um Mundial com Portugal podemos estar a falar de algo incrível.

Já foram ambos campeões da Europa, marcam muitos golos, eu acho que falta ganhar o mundial, se ganha o mundial, um ou outro, acho que podemos estar a falar do melhor jogador de sempre.

O Cristiano Ronaldo já ganhou a Bola de Ouro há 4 anos, tem estado sempre nessa luta, se ele ganha o mundial podemos estar a falar do melhor jogador de sempre. Ou pode ser o Messi, isto é uma questão de mundial pois é o que tem o Pelé, é o que tem o Maradona. A discussão é sempre essa, entre Pelé e Maradona, a geração mais nova escolhe Maradona, a mais antiga escolhe Pelé, porque ambos ganharam mundiais.

- Curiosamente hoje em dia muitas pessoas com 70 anos de idade, inclusive o primeiro treinador de Eusébio, eles dizem que o Messi é melhor que o Maradona, Pelé ou Di Stéfano.
- Se não tiverem o mundial a aceitação no final das suas carreiras nunca será unânime.

- Quando falamos dos melhores jogadores portugueses dos passados 50 anos falamos de Eusébio, Chalana, Futre, Figo e Cristiano Ronaldo.
- Eu metia o Rui Costa aí também.
- É justo dizer-se que o Cristiano Ronaldo já está a ultrapassar o Eusébio?
- Eu tenho um enorme respeito pelo "King", o Cristiano ainda só tem 26 anos, vamos a ver no próximo mundial. Mas pode-se dizer que o Cristiano "vem de Ferrari", está a aproximar-se e já está empatado ou está um pouco atrás do "King".

O Cristiano vem de Ferrari, já ultrapassou muita gente mas ainda está um pouco atrás do "King" por causa de tudo o que ele representou para Portugal. Têm ambos um 3º lugar num mundial. Se o Cristiano chega a uma final e obtém um 2º lugar num Mundial.... vamos a ver, mas ele vem de Ferrari.

- O Octávio Machado diz-me que tu gostas muito de dormir e que só comias uma torrada e um galão nos teus primeiros tempos no FC Porto.
- O Octávio foi um homem muito importante para mim, tivemos muitas lutas mas eu sabia que era para o meu bem. No FC Porto eu sabia que estavam ali três pessoas que nasceram para trabalhar juntas, que eram o Artur Jorge, o Octávio e o Professor João Mota. Então o Octávio era o "mau", era o "controle" em todos os aspectos. Ele dizia-me das "torradas" mas por vezes dizia-me de outras coisas.

Era o controle de peso todos os dias que era uma coisa incrível, então se tinhas uma grama a mais ou uma a menos.... eu como era jovem perdia peso e ele começava logo "o que é que comeste?" e eu dizia que eram umas torradas, ou um galão, ou um Nestum.

Se eu tinha uma grama a menos e ele dava-me cabo da cabeça. Mas é verdade que muitas vezes era uma torrada e um galão e ia treinar.

Eu saía do treino às 12:00, ia para casa dormir e como não havia muito tempo entre os treinos eu não almoçava, acordava às 14:30 e comia uma torrada ou leite com bolachas e ia treinar às 15:00, chego lá com menos peso do que de manhã e....

Tinha treino físico de manhã e saía de lá "morto" e eu quero é ir dormir, mas depois tenho que lá estar às 15:30 e nem tinha tempo para comer. O meu peso baixava e aí o Octávio dava-me cabo da cabeça.

- Os treinos no FC Porto eram mais exigentes que no Sporting?
- Com o Venglos (NDR: treinador do Sporting em 83/84) eram tremendos. A pré-temporada que fiz com o Venglos foi tremenda, das mais duras que já fiz, usávamos coletes com quilos e foi nesses meses com o Venglos que senti que comecei a ganhar "cabedal" e comecei a "encher" devido aquela pré-temporada. Recordo-me que foram duas ou três semanas na Covilhã que aquilo foi uma coisa incrível. Com o Artur Jorge os treinos também eram muito fortes.

- O Gil y Gil vendeu-te ao Benfica para evitar que pudesses fugir para o Real Madrid?
- Não, ele vendeu-me para Portugal porque o Atlético estava a passar por problemas financeiros graves e ele tinha que me vender. Na altura ainda não havia mercado de inverno, mas os jogadores estrangeiros que estivessem fora do seu país podiam voltar e eu só tinha esta oportunidade de voltar para Portugal.

- O Barcelona mostrou interesse em ti?
- Várias vezes
- Pensaste nisso, afinal de contas sair para o Barça seria mais pacífico para com os adeptos do que ires para o Real Madrid?
- Isso era entre eles(Barça e Atleti), eles chegavam lá e o Atlético respondia logo que eu era intransferível. Nunca se sentavam a negociar, diziam logo que eu era intransferível.

- O Fernando Mendes disse-me que a tua passagem pelo Benfica não foi inteiramente feliz e não estou a falar a nível de jogos....
- Foi horrível, passei mal, porque o Sousa Cintra meteu todos os adeptos do Sporting contra mim. Viver na mesma cidade que os adeptos do Sporting foi duro, eu não podia sair de casa. Comigo era da casa para o treino e do treino para casa, não foi fácil. Saía à rua e via coisas pintadas pelos adeptos a chamarem-me "filha da puta, vai à merda, cabrão não sei o quê", foi duro.

- Mas o Fernando Mendes disse-me que talvez não tenhas sido tão bem recebido pelo plantel do Benfica como desejavas?
- Nos primeiros dias, mas depois os líderes perceberam... aquilo era um balneário muito complicado, talvez o mais complicado onde já estive....
- Havia muitos grupinhos?
- Havia.

- Portugueses, Brasileiros, Russos?
- Sim, aquilo era tremendo,  mas quando os líderes viram que eu eram independente e que eu queria ser neutro em relação aos grupos, quando perceberam que eu estava ali para ganhar, então respeitaram-me.

Eu até fui apagar alguns fogos entre eles. Eu era o gajo que estava fora de tudo porque cheguei a meio da época.

- É verdade que o grupinho dos Portugueses era conhecido como "A Turma"?
- Sim.
- Quem era o líder da turma?
- Não sei, eram vários, aquilo eram tantos, mas o Mozer também pertencia a este grupo. O Rui Águas, o João Pinto, eu também era amigo deles todos na selecção. Se me perguntas se dentro desse grupo se havia algum gajo que era um "filha da mãe", algum "gajo mau" eu digo-te que não. Se havia um gajo que era um sacana, que era mau para os companheiros... não, havia problemas típicos de balneário mas nada de especial.

- O que se passou entre ti e o Sousa Cintra em 1993 para não vires para o Sporting?
- O Sousa Cintra portou-se mal comigo, ainda hoje estaria à espera dele no aeroporto para ir para Marbella.

Ele chegou a acordo comigo, chegou a acordo com o Gil y Gil e ficámos de nos encontrar no aeroporto às 09:00 para ir para Marbella e eu estive lá mas ele não apareceu. Depois ele veio dizer que eu queria mais dinheiro, o que era tudo mentira. Ele é um daqueles personagens que eu um dia ainda o vou encontrar e vou querer saber porque é que ele fez aquilo.

Depois ele meteu toda a gente contra mim, por isso é que eu nunca joguei contra o Sporting, eu joguei sempre contra o Toshack quando estava no Porto, e quando estava no Benfica eu jogava sempre contra o Sousa Cintra.

Quando eu meti aquele golo contra o Sporting eu festejei... e ele de certeza que essa noite não dormiu, mas eu era o homem mais feliz do mundo porque sabia que nessa noite o Sousa Cintra não conseguia dormir.

- Quando foste transferido do FC Porto para o Atlético Madrid, o Inter Milão era outro dos pretendentes, ainda não tinha chegado o tridente Germânico de Brehme, Matthaus e Klinsmann mas era um clube que te interessava?
- Claro. Nessa altura os estrangeiros eram eu e o Enzo Scifo. Tínhamos chegado a acordo, mas no dia seguinte aparece o Gil y Gil e fomos para Espanha.

- O Real Madrid, o Barcelona e outros clubes eram naturalmente desconfiados em relação ao "Jogador Português" porque nós não singrávamos lá fora?
- Claro, eu acho que abri muitas portas...
- Interrogavam-se sobre a tua força psicológica para saber o que diferenciava negativamente o jogador português?
- Antes da Lei Bosman só podiam jogar dois estrangeiros, portanto tinham que ser mais selectivos, o estrangeiro não podia falhar.

Havia dúvidas tremendas, faziam testes do outro mundo. Eu abri as portas, depois de mim já não faziam tantas perguntas, chegava o Figo e o Rui Costa e perguntavam-lhes se eles eram como aquele gajo(Futre) se tinham carácter igual aquele gajo.

- Que testes é que faziam?
- Perguntas, reuniões, estudavam-me, e depois vem o médico e....
- Psicólogos e psiquiatras também?
- Tudo, apareciam três pessoas, era o director, era o vice, era isto e aquilo....Quantas vezes fazes o que não fazes, o que comes e o que não comes, e a proposta nunca mais chegava.

- Eu perguntava o porquê de tudo aquilo e diziam-me "Paulo, porque todos os portugueses falharam". Um dia eu disse à Juventus, "perguntem ao Beckenbauer, querem saber do meu carácter? Perguntem ao Beckenbauer".

- Eu fui à selecção do mundo com 18 anos, hoje em dia é "os amigos de" mas naquela altura era uma selecção do mundo a sério. Fui lá com o Jordão e o Fernando Gomes e era o Mundo contra o Cosmos. Estava lá tudo, o Kevin Keagan, Felix Magath....
- O Ruud Krol?
- O Krol, Peter Shilton, Eric Gerets.

O treinador era o Telê Santana, eu estava no banco, estava empatado 1-1 e faltavam 30 minutos para acabar, e então o gajo vira-se para mim e diz "Paulo, você joga a lateral(esquerdo)?" Eu respondi que "eu jogo a lateral, jogo a central e até joguei uma vez a lateral direito, mas você a lateral direito não me meta!".

Eu nunca tinha jogado atrás (a lateral esquerdo), então o gajo meteu-me a lateral esquerdo. À minha direita tinha o Krol, Beckenbauer, Gerets e atrás de nós o Shilton. Olho para eles, tenho 18 anos, tenho ali os meus pais que têm um orgulho do carago em mim, não é?

Passados 10 segundos eu tenho ali o meu pai a dizer-me para subir, para ir para a frente. Ah, eu.... e eu ao fim de 10 segundos de orgulho de estar ali com aqueles jogadores, fui-me embora, fui p'rá frente, eles chamavam-me para voltar mas eu ia para todo o lado.

Eles diziam-me para voltar para a defesa mas eu dizia "calma". Eu já estava na posição de extremo-direito e perco a bola, eles atacam e fazem o golo.

O Beckenbauer vem ter comigo, vem ele e o Krol e eles "Fuck you e não sei o quê" e eu digo "calma, take it easy, I no defense, me attack, eu attack".

É como eu disse aos Italianos (da Juventus), eu disse ao Beckenbauer para ter calma, com o estádio cheio eu ia para o ataque. Se eles queriam saber do meu carácter falavam com o Beckenbauer.

- Eles a partir daí perguntavam aos Figos, Rui Costa, Paulo Sousa se eram como este gajo, se eles tinham aquilo?
- Os "huevos"?
- Isso mesmo.

Eu preferia 20.000 vezes levar com o Octávio do que com todas aquelas perguntas.

- No West Ham tinham-te prometido a camisola 10 mas deram-te a 16.
- Eu quando fui para lá não sabia se ia jogar uma semana ou um ano devido às lesões, e eu queria retirar-me com a número 10. Isso estava no meu contracto com eles.
- Após o aquecimento para o jogo contra o Arsenal tu vieste ao balneário viste lá a "16" e enfiaste a camisola na cabeça do Presidente Terry Brown, penso eu.
- É isso, muito bem. É isso assim mesmo. Chamei-o e disse que ninguém saía do balneário enquanto não viesse o presidente.

- O treinador era o Harry Redknapp.
- Sim.

- Foi uma experiência positiva com ele?
- Sim, muito boa. Grande treinador, grande homem, e com ele fiz a minha primeira grande contratação com o Porfírio.

- Que memórias tens do Costinha no Atlético?
- Ele vinha massacrado já com as lesões e com o Maniche era a mesma coisa. Não foi feliz, não quer dizer que não tenha feito um ou outro jogo importante.

- O Daniel Carriço é um defesa central com um percurso exemplar na formação do Sporting, mas está a acontecer-lhe o mesmo que acontece a muitos centrais de 1,80, estão a metê-lo no meio campo defensivo. Tu achas que o futuro dele é aí?
- Com o Mascherano é ao contrário.
- Mas o modelo de jogo é diferente, o Barcelona tem mais posse de bola....

- Tens muitos exemplos, o Hierro, o Fabricio Coloccini...
- Foste buscar o Coloccini ao Milan para o Atlético?
- Sim, emprestado.

- Tens o Pepe que joga a trinco e a central.
- Mas o Pepe tem 1,86 de altura. O Miguel Veloso era central na formação e nos seniores também o meteram como médio defensivo.
- Desde que vi o Baresi com a altura dele, com a inteligência dele. A inteligência é mais importante que a altura. Em Inglaterra estão a mudar mas a filosofia deles é centrais de 1,90. Mas há jogadores incríveis, olha para o Sergio Ramos, pode jogar na direita ou no centro e que altura tem ele?
- 1,83 quando acorda de manhã e talvez um pouco menos à hora de jantar.
- (risos) Se calhar em Inglaterra não o queriam para defesa.

- Se eras feliz porque saíste do Atlético de Madrid ao fim de seis anos?
- Porque o clube estava falido.

- Já não te pagavam o ordenado?
- Há 7 ou 8 meses, nem a mim nem a ninguém. A única salvação era a minha venda. Havia estudos que provavam que quando eu e o Gil y Gil estávamos zangados isso vendia mais jornais que o Real Madrid.

Eu dizia que não jogo mais com este gajo(Gil y Gil) e foi a única saída, tive que dizer isso para o proteger pois se ele me tentasse vender os adeptos matavam-no, e a única saída era vir para Portugal.

- Quando foi a primeira abordagem do Jorge de Brito para ingressares no Benfica em 1993?
- Quando eu digo que me quero ir embora, apareceram o Benfica e Sporting. Eu agradeci ao Benfica e fui negociar com o Sporting, e quando o Sousa Cintra não aparece no aeroporto é que eu depois às 16.00 ou 17:00 desse dia é que eu digo ao meu advogado para ligar ao Benfica para ver se ainda estavam interessados. O Benfica apareceu a 100% e em uma ou duas horas fechámos todo o acordo.

- Mas quando foste para o Atlético dizia-se que se fosses transferido para fora de Espanha que o FC Porto tinha que ser consultado e que em Portugal só podias jogar pelo FC Porto?
- Acho que não.

- É verdade que ameaçaste dar um tiro no joelho do Dani?
- Claro, claro.

Estávamos entre a vida e a morte no clube. Nós aqui em Portugal somos muito pacíficos, somos boas pessoas, basta veres que no Sporting quando há uma desilusão os miúdos das claques reclamam mas não passa daquilo. Mas noutros sítios por onde eu andei eles(claques) queimavam a cidade, não queimavam o estádio, queimavam era a cidade. Com a tristeza que eles estavam, com a desilusão, eles em grupo...

Aquilo não estava fácil, havia uma intervenção judicial, tinha o governo dentro do clube... O Dani tinha uma certa fama. A primeira coisa que o Gil y Gil me disse quando eu disse que eu queria ir buscar o Dani foi dizer-me "queres fazer do Vicente Calderon uma casa de putas!?".

Eu perguntei ao Dani quem era o único maluco no mundo que acreditava nele e ele disse que era eu, e eu disse-lhe que se ele me viesse a desiludir a mim e aos meus filhos que eu lhe iria dar um tiro no joelho e ele autorizou à frente do Veiga e do pai dele(Dani).

- Baixaste as calças no balneário para perguntares aos jogadores se eles tinham "Huevos"?
- Foi uma maneira de os motivar. É como te disse, os grandes lideres como o Mourinho e Capello sabem motivar.

Nós tínhamos perdido no jogo anterior e eu dei a minha primeira palestra como director desportivo no dia a seguir. Estava lá o Salva (NDR: Salva Ballesta) e ele disse que para sair daquela situação eram precisos "huevos", e eu apanhei aquilo. Fiquei dias a pensar na palestra, a gente nem podia sair à rua porque estávamos a ser ameaçados de morte, estávamos em último lugar na 2ª divisão.

- Na palestra de Terça-Feira com o grupo eu virei-me para o Salva e disse-lhe "o que disseste no Domingo?", e ele disse que "eram precisos huevos", e eu baixei isto para baixo e "pronto, os meus estão aqui e são os primeiros, não é!?" E a malta... "pá, vamos ganhar!!"

- Não resisto a perguntar. Se fosses director desportivo do Sporting estavas disposto a fazer isso no balneário do Sporting?
- Claro.

- O que tenho eu mais que todos eles? Sou Bola de Prata, tenho experiência disto, tinha que espicaçar-lhes o orgulho, sou o primeiro disposto a morrer. Eu disse "olhem bem para mim, está aqui, estão aqui os meus("huevos")", estávamos a ser ameaçados de morte, era preciso reagir.
- E qual foi a reacção deles?
- Ganhámos no Domingo.
- Óptimo. Isso é que é preciso.
- (risos).

- E o Hugo Leal?
- O Hugozinho já lá estava quando eu lá cheguei e eu tentei levantar-lhe a moral e depois lá o vendi no verão para o Paris SG por 8 milhões de euros.

- Como é o assédio das "groupies" Espanholas aos jogadores comparado com as Portuguesas?
- É complicado.
- O Hugo Leal alegadamente era assediado pela Ana Obregón.
- Falava-se. Hoje em dia há uma grande igualdade entre homens e mulheres, mas lá são mais atrevidas.

- Tu falas muitas vezes do Luis Aragonés, ele era especial?
- Ele e o Artur Jorge foram os dois melhores treinadores que eu tive. Tive uma boa relação com ele, ganhámos a Taça do Rei com ele, e ele foi um autêntico génio.

Foi o Aragonés que construiu esta selecção de Espanha, foi lá que começaram a jogar o "Tiki-Taka". O Vicente Del Bosque foi inteligente, não mudou nada.

- Domingos Paciência é um bom treinador?
- Sim, é um homem que vem de dentro de um balneário, tem muita experiência. Bom treinador, sem dúvida.

- Dois jogadores que gostavas de ter trazido para o Sporting eram o Breno e o Royston Drenthe. Porquê o Breno?
- Porque é jovem, só tinha mais um ano de contracto, tinha uma progressão tremenda e tem todas as condições para ser um dos melhores centrais do mundo.

- Que memórias tens do Hugo Sánchez?
- Era um matador autêntico, era um "killer", foi o ponta-de-lança da "Quinta del Buitre".

- Cinco vezes "pichichi".
- Foi "matador" no Real Madrid e também no Atlético Madrid.

- Surpreendeu-te a transição sem sobressaltos do Di Maria do Benfica para o Real Madrid?
- Fez um ano espectacular. Os primeiros 4 ou 5 meses dele foram incríveis, depois teve uma ligeira quebra e depois subiu outra vez. aqui em Lisboa não saía do lado esquerdo mas em Madrid joga muito bem do lado direito.

- Esperavas mais do Simão Sabrosa no Atlético?
- O Simão fez uns anos maravilhosos e conseguiu ganhar a Liga Europa, e quando ele saiu o Atlético ressentiu-se.

- O Reyes foi do Sevilha para o Arsenal, não se adaptou, veio para o Real Madrid e marcou o "golo do título" contra o Maiorca, depois foi para o Benfica e agora anda no Atlético, parece um nómada. Porque razão ele não se fixa numa equipa?
- Para mim ele tem um valor incrível, é dos poucos que teve que suportar coisas muito fortes, como ter os adeptos a gritar "Reyes Muerete!!" 99% dos jogadores que levam com isto não se conseguem levantar, é preciso muito carácter.

- O Diego Forlan foi Bola de Ouro no Mundial de 2010 mas na época seguinte foi um desastre...
- Muitos jogadores passam por isso. Não foi o ano dele, e depois teve problemas, lesões. Quando o "Kun"(Sergio Aguero) se lesionou na 2ª jornada isso abalou muito a equipa, pois com o Kun e o Forlan falava-se que a equipa podia ser a alternativa aos "Dois Grandes". Eu vi jogos em que o Forlan estava fisicamente esgotado.

- Quique Flores saiu de Portugal com a cotação em baixa, alguns comentadores da RTP até lhe pediam por favor para se ir embora, mas chegou ao Atlético e foi um sucesso.
- São países diferentes, outras mentalidades.

- Acreditas que o Nani podia ser uma mais-valia para o Real Madrid?
- No 11 tinhas que retirar o Di Maria ou o Cristiano, não é?

- O Cristiano não me parece que pudesse sair...
- Dentro do plantel, a época é longa.... porque não, sim, tinha qualidade para o Real Madrid.

- Que pensas do Salvio?
- Ele chegou ao Atlético Madrid no ano passado e o Quique não lhe deu muitos minutos mas aqui teve oportunidades e fez uma época excelente.

- Reafirmas o que disseste durante a campanha do Dias Ferreira? Que o teu clube do coração é o Sporting?
- Claro.
- Uns dizem que tu és do Benfica, do Porto, do Sporting.... e como tu disseste isso durante a campanha, as pessoas pensam que apenas disseste isso para conseguir votos para o Dias Ferreira.
- Sou sócio há 33 anos, não é?
- Mas eles dizem, tu se calhar também és sócio do Benfica e do FC Porto...
- (risos) Claro. Estás numa campanha para umas eleições, é normal que diga isso.

- Como é que o Fernando Torres olhava para ti?
- A primeira vez? Nem conseguia olhar para mim. Nem agora, ele quando me vê baixa a cabeça. Eu era o ídolo deles todos.

- É fácil lidar com esta nova fama em que foste descoberto por uma nova geração?
- O que se passa é os miúdos, eles querem saber quem é este gajo, miúdos de 10 anos foram ver à net como é que eu jogava. Depois eles quando me falam dizem-me "Paulo, jogavas muito..."
- Eles pedem-te para dizeres "sócio"?
- Ah, isso toda a gente me pede. Isso agora é obrigatório, não é? Mas tem que ser com o estalar de dedos e tudo (risos).

- Se pudesses escolher como gostarias de ser recordado por esta nova geração de adeptos?
- Claro que gostaria de ser recordado como um grande jogador. Eu no passado estava magoado com Portugal, porque todas as homenagens que me fizeram foram fora de Portugal, não era normal não ser recordado no meu próprios país.

- Paulo, eis a última pergunta. Que memórias guardas do "Estabelecimentos Cancela"?
- A primeira final com os leõezinhos. Limpámos tudo e todos. O Fernando Mendes aparece mais tarde. O nosso objectivo era chegar à final, éramos uma equipazinha do Montijo, mas conseguimos ganhar a final por penalties.

Foi a minha primeira entrada no Estádio José Alvalade, só isso já foi um prémio.

- Primeiros tempos, com lições de vida, passar por dificuldades, ganhar humildade?
- Sim, mas sempre rebelde. Apesar do meu talento, foi a pulso desde miúdo para chegar ao topo. Um gajo tem que ir para a frente sem medo.



Texto: André Carreira de Figueiredo e Ricardo Ferreira Figueiredo.
Imagens: Ricardo Ferreira Figueiredo/Notícias do Futebol e João Carlos Diogo.







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